quarta-feira, 11 de março de 2009

A humanidade está vegetando





Por Osho




Você disse recentemente que a maior parte da humanidade está vegetando, não vivendo. Por favor explique para nós a arte de viver de maneira que a morte possa tornar -se também uma celebração.
O homem nasce para atingir a vida, mas tudo depende dele. Ele pode perdê-la. Ele pode seguir respirando, ele pode seguir comendo, ele pode seguir envelhecendo, ele pode seguir se movendo em direção ao túmulo - mas isto não é vida. Isto é morte gradual, do berço ao túmulo, uma morte gradual com a duração de setenta anos. E porque milhões de pessoas ao redor de você estão morrendo esta morte lenta e gradual, você também começa a imitá-los. As crianças aprendem tudo daqueles que estão em volta delas e nós estamos rodeados pelos mortos. Então temos primeiro que entender o que eu quero dizer por ‘vida’. Ela não deve ser simplesmente envelhecer. Ela deve ser desenvolver-se. E isto são duas coisas diferentes. Envelhecer, qualquer animal é capaz. Desenvolver-se é a prerrogativa dos seres humanos. Somente uns poucos reivindicam o direito.
Desenvolver-se significa mover-se a cada momento mais profundamente no princípio da vida; significa afastar-se da morte - não na direção da morte. Quanto mais profundo você vai para dentro da vida, mais entende a imortalidade dentro de você. Você está se afastando da morte; chega um momento quando você pode ver que a morte não é nada, apenas um trocar de roupas ou trocar de casas, trocar de formas - nada morre, nada pode morrer. A morte é a maior das ilusões que existe.
Para se desenvolver, simplesmente observe uma árvore. Enquanto a árvore cresce, suas raízes estão crescendo para baixo, mais profundas. Existe um equilíbrio; quanto mais alto a árvore vai, mais fundo as raízes irão. Você não pode ter uma árvore de cento e cinqüenta pés de altura com pequenas raízes; elas não poderiam suportar tal árvore imensa. Na vida, se desenvolver significa crescer profundamente para dentro de você mesmo - que é onde suas raízes estão.
Para mim o primeiro princípio da vida é meditação. Tudo o mais vem em segundo lugar. E a infância é o melhor momento. À medida que você envelhece, significa que você está chegando mais perto da morte e se torna mais e mais difícil entrar na meditação. Meditação significa entrar na sua imortalidade, entrar na sua eternidade, entrar na sua divindade. E a criança é a pessoa mais qualificada porque ela ainda está sem a carga da educação, sem a carga de todo o tipo de lixo. Ela é inocente. Mas infelizmente a sua inocência está sendo condenada como ignorância. Ignorância e inocência têm uma similaridade, mas elas não são a mesma coisa. Ignorância também é um estado de não conhecimento, tanto quanto a inocência é. Mas existe também uma grande diferença, que passou despercebida por toda a humanidade até agora. A inocência não é instruída - mas também não é desejosa de ser instruída. Ela é totalmente contente, preenchida...
O primeiro passo na arte de viver será criar uma linha de demarcação entre ignorância e inocência. Inocência tem que ser apoiada, protegida - porque a criança trouxe com ela o maior tesouro, o tesouro que os sábios encontram depois de esforços árduos. Os sábios têm dito que se tornaram crianças novamente, que eles renasceram...
Sempre que você perceber que perdeu a oportunidade da vida, o primeiro princípio a ser trazido de volta é a inocência. Abandone o seu conhecimento, esqueça suas escrituras, esqueça as suas religiões, suas teologias, suas filosofias. Nasça novamente, torne-se inocente - e a possibilidade está em suas mãos. Limpe a sua mente de tudo o que não é conhecido por você, de tudo o que é emprestado, tudo o que veio da tradição, convenção, tudo o que lhe foi dado pelos outros - pais, professores, universidades. Simplesmente desfaça-se disto. Novamente seja simples, mais uma vez seja uma criança. E este milagre é possível pela meditação.
Meditação é apenas um método cirúrgico não convencional que o corta de tudo aquilo que não é seu e só salva aquilo que é o seu autêntico ser. Ela queima tudo o mais e o deixa nu, sozinho embaixo do sol, no vento. É como se você fosse o primeiro homem que tivesse descido na terra - que não sabe nada, que tem que descobrir tudo, que tem que ser um buscador, que tem que ir em peregrinação.
O segundo princípio é a peregrinação. A vida deve ser uma busca - não um desejo, mas uma pesquisa; não uma ambição para tornar-se isto, para tornar-se aquilo, um presidente de um país ou o primeiro ministro de um país, mas uma pesquisa para encontrar "Quem sou eu?" É muito estranho que as pessoas que não sabem quem elas são, estão tentando se tornar alguém. Elas nem mesmo sabem quem elas são neste momento! Elas não conhecem os seus seres - mas elas têm um objetivo de vir a ser. Vir a ser é a doença da alma. O ser é você e descobrir o seu ser é o começo da vida. Então cada momento é uma nova descoberta, cada momento traz uma alegria. Um novo mistério abre as suas portas, um novo amor começa crescer em você, uma nova compaixão que você nunca sentiu antes, uma nova sensibilidade a respeito da beleza, a respeito da bondade.
Você se torna tão sensível que inclusive a menor folha de grama tem uma imensa importância para você. Sua sensibilidade torna claro para você que esta pequena folha de grama é tão importante para a existência quanto a maior estrela; sem esta folha de grama, a existência seria menos do que é. E esta pequena folha de grama é única, ela é insubstituível, ela tem a sua própria individualidade.
E esta sensibilidade criará novas amizades para você - amizades com árvores, com pássaros, com animais, com montanhas, com rios, com oceanos, com estrelas. A vida se torna mais rica enquanto o amor cresce, enquanto a amizade cresce...
Quando você se torna mais sensível, a vida se torna maior. Ela não é um pequeno poço, ela se toma oceânica. Ela não está confinada a você, sua esposa e seus filhos - ela não é confinada de jeito nenhum. Toda esta existência se torna sua família e a menos que toda a existência seja sua família, você não conheceu o que é a vida - porque nenhum homem é uma ilha, nós somos todos conectados. Nós somos um vasto continente, unidos de mil maneiras. E se o nosso coração não está cheio de amor pelo todo, na mesma proporção a nossa vida é diminuída.
A meditação lhe traz sensibilidade, uma grande sensação de pertencer ao mundo. Este é o nosso mundo - as estrelas são nossas e nós não somos estrangeiros aqui. Nós pertencemos intrinsecamente à existência. Nós somos parte dela, nós somos o coração dela.
Em segundo lugar, a meditação irá lhe trazer um grande silêncio - porque todo o lixo do conhecimento foi embora, pensamentos que são partes do conhecimento foram embora também... Um imenso silêncio e você é surpreendido - este silêncio é a única música que existe. Toda música é um esforço para manifestar este silêncio de algum modo.
Os videntes do antigo oriente foram muito enfáticos a respeito da questão que todas as grandes artes - música, poesia, dança, pintura, escultura - são todas nascidas da meditação. Elas são um esforço para de algum modo trazer o incompreensível para o mundo do conhecimento, para aqueles que não estão prontos para a peregrinação - presentes para aqueles que ainda não estão prontos para partirem na peregrinação. Talvez uma canção possa despertar um desejo de ir em busca da fonte, talvez uma estátua.
A próxima vez que você entrar em um templo de Gautama Buda ou Mahavira, sente-se silenciosamente, olhe a estátua... porque a estátua foi feita de tal forma, em tal proporção que se você olhá-la, você cairá em silêncio. É uma estátua de meditação; não é a respeito de Gautama Buda ou Mahavira...Naquele estado oceânico o corpo toma uma certa postura. Você próprio já observou isto, mas não estava alerta. Quando você está com raiva, você observou? - seu corpo tomou uma certa postura. Na raiva você não pode manter as suas mãos abertas; na raiva - a mão fecha. Na raiva você não pode sorrir - ou você pode? Com uma certa emoção, o corpo tem que seguir uma certa postura. Pequenas coisas estão profundamente relacionadas dentro...
Uma certa ciência secreta foi usada por séculos, de modo que as gerações futuras pudessem entrar em contato com as experiências das gerações mais velhas - não através de livros, não através de palavras, mas através de algo que vai mais profundo - através do silêncio, através da meditação, através da paz. À medida que o seu silêncio cresce, sua amizade cresce, seu amor cresce; sua vida se torna uma dança momento a momento, uma alegria, uma celebração...
Você já pensou sobre o porquê, em todo o mundo, em toda cultura, em toda sociedade, existem uns poucos dias no ano para a celebração? Estes poucos dias para a celebração são apenas uma compensação - porque estas sociedades tiraram toda a celebração de sua vida e se nada é dado para você em compensação, sua vida pode tornar-se um perigo para a cultura. Toda cultura criou alguma compensação e assim você não se sentirá completamente perdido na miséria, na tristeza... Mas estas compensações são falsas. Mas no seu mundo interior pode existir uma continuidade de luz, canções, alegrias.
Sempre lembre-se que a sociedade o compensa quando ela sente que a repressão pode explodir em uma situação perigosa se não for compensada. A sociedade encontra algum jeito de lhe permitir soltar a repressão. Mas isto não é a verdadeira celebração, e não pode ser verdadeira. A verdadeira celebração deveria vir de sua vida, na sua vida.
E a verdadeira celebração não pode estar de acordo com o calendário, que no primeiro de novembro você irá celebrar. Estranho, o ano todo você é miserável e no primeiro de novembro de repente você sai da miséria, dançando. Ou a miséria era falsa ou o primeiro de novembro é falso; ambos não podem ser verdadeiros. E uma vez que o primeiro de novembro se vai, você está de volta em seu buraco negro, todo mundo em sua miséria, todo mundo em sua ansiedade.
A vida deveria ser uma celebração contínua, um festival de luzes por todo o ano. Somente então você pode se desenvolver, você pode florir. Transforme pequenas coisas em celebração... Tudo o que você faz deveria expressar a si próprio; deveria ter a sua assinatura. Então a vida se torna uma celebração contínua.
Inclusive se você adoece e você está deitado na cama, você fará daqueles momentos de repouso, momentos de beleza e alegria, momentos de relaxamento e descanso, momentos de meditação, momentos para ouvir música ou poesia. Não existe necessidade de ficar triste porque você está doente. Você deveria estar feliz que todo mundo está no escritório e você está na cama como um rei, relaxando - alguém está preparando chá para você, o samovar está cantando uma canção, um amigo se oferece para vir e tocar flauta para você. Estas coisas são mais importantes do que qualquer remédio. Quando você está doente, chame um médico. Mas mais importante, chame aqueles que o amam porque não existe remédio mais importante que o amor. Chame aqueles que podem criar beleza, música, poesia à sua volta, porque não existe nada que cure como uma atmosfera de celebração.
O medicamento é o mais baixo tipo de tratamento. Mas parece que nós esquecemos tudo, assim nós temos que depender dos medicamentos e ficar rabugentos e tristes - como se você estivesse perdendo uma grande alegria que havia quando você estava no escritório! No escritório você era miserável - simplesmente um dia de folga e você também se agarra à miséria; você não a deixa ir.
Faça todas as coisas criativas, faça o melhor a partir do pior - isto é o que eu chamo de arte. E se um homem viveu toda a sua vida fazendo todo momento e toda fase dela uma beleza, um amor, um desfrute, naturalmente a sua morte será o supremo pico no empenho de toda a sua vida.
Os últimos toques... sua morte não será feia como ordinariamente acontece todo o dia com todo o mundo. Se a morte é feia, significa que a sua vida toda foi um desperdício.
A morte deveria ser uma aceitação pacífica, uma entrada amorosa no desconhecido, um alegre despedir-se dos velhos amigos, do velho mundo...
Comece com a meditação e muitas coisas crescerão em você - silêncio, serenidade, êxtase, sensibilidade. E o que quer que venha da meditação, tente trazê-lo para a sua vida. Compartilhe isto, porque tudo o que é compartilhado cresce mais rápido. E quando você atingir o momento da morte, você saberá que não existe morte. Você pode dizer adeus, não existe necessidade de nenhuma lágrima de tristeza - talvez lágrimas de felicidade, mas não de tristeza.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Primeiro Beijo



Um encontro combinado através de um encontro encontrado, um abraço, um olá. Um olá com o olhar, uma dança, uma pausa, uma conversa, outra dança, uma pausa...palavras soltas, outra dança, uma pausa... palavras pela metade... outra pausa... o melhor beijo... o primeiro de todos os mais gostosos... mais intensos, mais sinceros e encaixados beijos... nosso primeiro beijo... de um jeito que só mesmo nós podemoos entender, sentir e nos satisfazer... com todo o amor e paixão desse mundo...


Foi assim como ver o mar... Te amo.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Contentamento

por Monja Coen

Há muitos e muitos anos, o rei de um país distante andava triste. Um de seus conselheiros sugeriu que ele usasse a camisa de uma pessoa feliz para se tornar feliz também. A procura começou, mas parecia difícil encontrar alguém capaz de estar sempre alegre e contente. Finalmente, os emissários reais ouviram falar de um homem simples, que morava do outro lado da montanha, e foram encontrá-lo. Ficaram surpresos ao vê-lo, trabalhando sem reclamar, sorrindo ao recebê-los. Conversaram, e ele concordou em ver o rei. Na sala do trono, o rei tristonho aguardava, já sem esperanças. Talvez não existisse um ser verdadeiramente feliz. Entrevistara tanta gente. Sempre havia um pedido, uma reclamação, uma tristeza secreta embutida em alguma prega da memória ou da ambição. Será que não haveria na Terra uma criatura que sorrisse sem malícia, que falasse sem nenhuma intenção? Os arautos reais anunciaram a chegada da comitiva. O rei se aprumou no trono, andava cabisbaixo. Os ministros estavam cansados de convidar artistas e já tinham trocado mais de 15 "bobos da corte". De bobos eram chamados os que deveriam fazer a corte rir. Palhaços. Geralmente, pessoas muito sábias, cuja intenção era alegrar e até mesmo aconselhar, de maneira sutil e risonha, nas decisões finais. Conhecedores dos corações e das mentes de seus senhores, sabiam segredos íntimos. Entretanto, suas cabeças sempre dependiam das risadas que tiravam dos soberanos. Os bobos daquela corte não conseguiam do rei mais do que um sorriso. O rei sentou-se e viu com surpresa o homem entrar. Era grande, truculento e estava suado. Sorria ao reverenciar o monarca ali assentado. "Aproxime- se! Você é uma pessoa feliz?", perguntou o rei. O homem respondeu que sim. "Você veio ao meu castelo, pode falar comigo. Há alguma coisa que o incomode, alguma tristeza ou problema, alguma reivindicação, alguma reclamação, algum ódio do passado, algum rancor guardado?", continuou o monarca. O homem disse: "Não, majestade! Respiro a cada instante e isso me basta. É verdade". "Você não gostaria de comer coisas raras e deliciosas, banhar-se em leite, ser acariciado pelas mulheres mais belas do reino? Não gostaria de possuir terras, casas, gado, plantações? Não seria bom ter poder de controlar e de matar? Algo falta, com certeza, diga o que é", insistiu o soberano. O homem mais uma vez disse que nada lhe faltava. Seu olhar era límpido e sereno, parecia verdadeiro. Finalmente, haviam encontrado um homem feliz. Conta essa história antiga, do tempo de minha infância, que o rei pediu ao homem que entregasse sua camisa. Porém, ele não possuía uma. Há quem pense que alegria, felicidade e contentamento dependem de roupas, objetos, lugares, conhecimentos. Alguns acreditam que podem encontrá-los nos cargos, no status. Outros depositam suas esperanças de felicidade em amores, relacionamentos. Entretanto, a capacidade de ficar satisfeito é interna e profunda. É estar contente pela existência em si. Tudo o que pode acontecer faz parte de nossa vida. Nada temos a excluir, nada temos a desejar.Buda, em seu último sermão, pouco antes de morrer, disse a seus discípulos que quem conhece a satisfação penetra a grande sabedoria suprema. Estar contente e satisfeito não é apenas ficar rindo à toa. É uma sensação profunda que vem do encontro com si mesmo. Sofrimentos e alegrias, dores e prazeres, falta e abundância, reconhecimento e injustiças, tudo isso existe em dualidade. Ao encontrar a unidade, o sábio sente piedade por quem ainda se encontra fragmentado e partido, triste e desenxabido.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Essencialmente diferentes...




"Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos
inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a
nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de
uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença
que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades."

(Boaventura de Souza Santos)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Simples, direto e atual.





"No mundo atual está se investindo cinco vezes mais em remádios para virilidade masculina e silicone para mulheres do que na cura do Mal de Alzheimer. Daqui a alguns anos veremos velhas de seios grandes e velhos de pinto duro, mas quenão se lembrarão para que servem.


Por Dr.Dráuzio Varella

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

...direção à felicidade.


Dia dos Mortos


Monja Coen

Nos cemitérios as lápides limpas, carpidas as ruas e túmulos em flores. As ruas engarrafadas, as lágrimas derramadas, os bolsos se enchendo de moedinhas por olhar o carro, por trazer água, por carregar as flores da tia. A sensação de missão cumprida daqueles que crêem que os mortos precisam de um dia.

Dia de se lembrar e de homenagear... E os mortos terríveis, de coisas falíveis, responsáveis por crimes contra a humanidade? E os mortos malvados que depredaram cidades, países, jovens, meninos e meninas, cadelas e vacas, éguas e cabras?

Homenagear e lembrar de todos os mortos, que assim se mantenham em paz.

Os que morreram dormindo, os que morreram sonhando, os que morreram quietos, os que morreram gritando, os que morreram crianças, os que de velhice se foram, os dos acidentes de carros, de ônibus, atropelamentos, trens, aviões, navios, submarinos, plataformas, foguetes e todos os acidentes de trabalho e do lar. Os que morreram nas guerras, batalhas, violências das casas, das vilas, dos povos. Os que morreram das pestes, doenças. Os que morreram de repente, os que foram torturados lentamente. Os que morreram exilados, os que exilaram e morreram nos cárceres e masmorras dos regimes totalitários. Os que morreram por matar, estuprar. Os que morreram assassinados, estuprados, maltratados. São todos os mortos, indiscriminadamente aqui homenageados. Bons e maus, boas e más. Que todos descansem em paz.

Há filmes medonhos de levantes de falecidos, de carnes despidos, pingando horror, monstros de terror.

Deixemos os mortos quietos, tranqüilos, que estejam nos mundos já sem desejos e sem apegos. O que fizeram enquanto vivos teve a ver com seu nascimento, educação, saúde, inclusão ou exclusão, violência ou violentação. Teve a ver com carma herdado e carma criado.

Há carma coletivo e carma individual. Não é destino pré determinado, que prende para sempre. Carma quer dizer ação. Não é mal apenas. Pode ser carma muito bom. Por exemplo, o carma de encontrarmos circunstâncias favoráveis e podermos compartilhar alegrias. Outro dia nos reunimos no Pacaembu. Éramos representantes de várias denominações religiosas: Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Assembléia de Deus, Lama Tibetano, Mães de Santo, Pastor Presbiteriano, Xeiques e Rabino, Católicos, Igreja Anglicana, Espíritas, Budistas, PL, Messiânica, Iniciativa das Religiões Unidas e outros mais. Algum carma muito bom nos uniu e permitiu compartilhar o comprometimento de participar voluntariamente e com voluntários do Projeto Fome Zero. Zerando nossas divergências, vamos trabalhar juntos criando uma nova consciência.

A fome nos deu esta oportunidade de criar carma positivo, carma bom. A carência nos deu esta chance de transformar o carma da indiferença no de cuidado. A exclusão, a dor, a injustiça nos fizeram unir não apenas as mãos em oração, mas os corações e as mentes na procura de ações efetivas de transformação.

Um carma positivo pode gerar outros e expandir-se... Carma individual e coletivo. Carma não é apenas destino mau.

E, se por acaso, tivemos herdado de ancestrais, de vidas passadas, de nossos próprios atos e omissões carmas pesados, tristes, sofridos, podemos transformar essa energia também. Não apenas se entregar. Não diga, por favor, “este é meu carma, nada posso fazer”. Pode sim. Você pode, você consegue e você merece.

Somos a vida do universo em constante transformação. Graças a todos os mortos, dos quais hoje nos lembramos, hoje aqui e agora vivemos. Espécie humana não é melhor do que as outras. É diferente. Tem um potencial único de poder destruir ou construir todo o planeta. Será, minha gente, que não chegou a hora de se entregar à nossa missão verdadeira e criar aqui na Terra a harmonia do amor, da sabedoria, da compaixão?

Louvando a vida com nossas vidas, vamos procurar ajudar sem atrapalhar, sem forçar. Encontre grupos, parceiros, funde organizações e se mexa. Há gente precisando de você. Há plantas, peixes, animais precisando de você. Há terras e minerais, águas e cristais todos precisando de você. Por favor, abra seu coração, transcenda toda discriminação e dúvida. Crie carma positivo para você, sua família, seus amados amigos, seus vizinhos, conhecidos e desconhecidos. Espalhe a bondade, sem melar, sem amolar, sem exagerar. O que fazer, quanto fazer, para quem, onde e quando.

Que os seres iluminados e benfazejos nos abençoem a todos nesta caminhada, que não é só nossa, mas de toda a humanidade, em direção à felicidade.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

À Moda de Deus

Hoje o tema de Deus está em alta. Alguns em nome da ciência pretendem negar sua existência como o biólogo Richard Dawkins com seu livro Deus, um delirio (São Paulo 2007). Outros como o Diretor do Projeto Genoma, Francis Collins com o sugestivo título A linguagem de Deus (São Paulo 2007) apresentam as boas razões da fé em sua existência. E há outros no mercado como os de C.Hitchens e S.Harris.

No meu modo de ver, todas estes questionamentos laboram num equívoco epistemológico de base que é o de quererem plantar Deus e a religião no âmbito da razão.

O lugar natural da religião não está na razão, mas na emoção profunda, no sentimento oceânico, naquela esfera onde emergem os valores e as utopias. Bem dizia Blaise Pascal, no começo da modernidade:"é o coração que sente Deus, não a razão"(Pensées frag. 277). Crer em Deus não é pensar Deus mas sentir Deus a partir da totalidade do ser.

Rubem Alves em seu Enigma da Religião (1975) diz com acerto:"A intenção da religião não é explicar o mundo. Ela nasce, justamente, do protesto contra este mundo descrito e explicado pela ciência. A religião, ao contrário, é a voz de um consciência que não pode encontrar descanso no mundo tal qual ele é, e que tem como seu projeto transcendê-lo".

O que transcende este mundo em direção a um maior e melhor é a utopia, a fantasia e o desejo. Estas realidades que foram postas de lado pelo saber científico voltaram a ganhar crédito e foram resgatadas pelo pensamento mais radical inclusive de cunho marxista como em Ernst Bloch e Lucien Goldman. O que subjaz a este processo é a consciência de que pertence também ao real o potencial, o virtual, aquilo que ainda não é mas pode ser. Por isso, a utopia não se opõem à realidade. É expressão de sua dimensão potencial latente.

A religião e a fé em Deus vivem desse ideal e desta utopia. Por isso, onde há religião há sempre esperança, projeção de futuro, promessa de salvação e de vida eterna. Elas são inalcançáveis pela simples razão técnico-científica que é uma razão encurtada porque se limita aos dados sempre limitados. Quando se restringe apenas a essa modalidade, se transforma numa razão míope como se nota em Dawkins. Se o real inclui o potencial, então com mais razão o ser humano, cheio de ilimitadas potencialidades. Ele, na verdade, é um ser utópico. Nunca está pronto, mas sempre em gênese, construindo sua existência a partir de seus ideais, utopias e sonhos. Em nome deles mostrou o melhor de si mesmo.

É deste transfundo que podemos recolocar o problema de Deus de forma sensata. A palavra-chave é abertura. O ser humano mostra três aberturas fundamentais: ao mundo transformando-o, ao outro se comunicando, ao Todo, captando seu caráter infinito, quer dizer, sem limites.

Sua condition humaine o faz sentir-se portador de um desejo infinito e de utopias últimas. Seu drama reside no fato de que não encontra no mundo real nenhum objeto que lhe seja adequado. Quer o infinito e só encontra finitos. Surge então uma angústia que nenhum psicanalista pode curar. É daqui que emerge o tema Deus. Deus é o nome, entre tantos, que damos para o obscuro objeto de nosso desejo, aquele sempre maior que está para além de qualquer horizonte.

Este caminho pode, quem sabe, nos levar à experiência do cor inquietum de Santo Agostinho:"meu coração inquieto não descansará enquanto não repousar em ti"

A razão que acolhe Deus se faz inteligência que intui para além dos dados e se transforma em sabedoria que impregna a vida de sentido e de sabor.


Autor: Leonardo Boff
Fonte: Texto Recebido por e-mail