segunda-feira, 6 de julho de 2009

VIDA e Morte









por Monja Coen




Vida após a morte? Morte após a vida? Vida em vida? Morte em morte? Morte na vida? Vida na morte? Morte na morte? Vida na vida? O que veio primeiro, a morte ou a vida? Estaria tudo morto quando a vida iniciou o seu processo inusitado de dar vida à morte? Ou estaria tudo vivo quando a morte iniciou o seu processo inusitado de matar a vida? É a vida dando vida à vida? É a morte matando a morte? É a vida dando vida à morte? É a morte dando vida à vida?
Dizem os budas que não há nascer nem morrer. Então, como explicar o choro do bebê. Nasceu, não foi? E como falar do morto no caixão, sendo velado. Morreu, não foi?
Há quem adore falar com os mortos. É tão legal falar com os vivos. Não é preciso esperar que morram para ouvi-los, para falar, para pedir perdão, para querer aprender, para doar. Há seres maravilhosos hoje, agora, ao seu lado, em você. Pare e olhe para eles. Encontre e ouça a sua voz mais doce e verdadeira. É preciso encontrar, neste plano, neste instante, em cada ser, a graça do "interser". É preciso cultivar a beleza, a pureza, a bondade e as virtudes e fazer uma teia preciosa de seres iluminados, brilhando para todos os lados.
Não há tempo a perder e, ao mesmo tempo, temos toda a eternidade. O tempo não está correndo. Corremos junto com o tempo. Giramos com a Terra, que gira em tomo do Sol... Somos o tempo. Um momento.
Para onde foi o momento que eu pedi para esperar? Ele não esperou. Nada espera. Tudo flui. Fluímos com o tempo. Vivendo e morrendo a cada instante. Células que nascem e morrem. Quem quer ser eterno?

Vou mudando, crescendo, envelhecendo. A barriga cresce, depois murcha. Já não consigo andar tanto. Fico cansada por qualquer coisinha. Esqueço as coisas, esqueço as pessoas. Quando me perguntam do passado, tenho de puxar memórias que nem sei onde foram arquivadas. Surge um rosto, uma face, uma voz: "Você se lembra de mim?". Lembro? Não sei.
Eternamente vivendo cada morte instantânea de mim mesma. Presente. Presente de ser e de estar. Presente de receber e de dar.
Professora! Posso ir ao banheiro? Não. Pipi no chão. Vá buscar um pano e limpar. E a minha roupa molhada? E as minhas pernas, as minhas meias, o meu sapato? Eu pedi para ir ao banheiro. Claro que não deu tempo no recreio. Intervalo é para brincar, jogar bola. Não dá tempo de ir ao banheiro. Por que a professora não entende? Nunca foi criança, talvez? Já nasceu assim grande, professora?
Professora pode rasgar papel de aluno? Mesmo um papelzinho de recado, de desenho, de ternura, de amizade? Pode?
Direitos humanos. Quem avançou o sinal? Quem desrespeitou primeiro? Ele estava batendo no meu amigo. Fui lá e o enforquei. Ele me deu dois murros. Todos para a diretoria. Quando a gente cresce, não é para a diretoria da escola que a gente vai. Quando a gente cresce, não é a professora que rasga nossos papéis de recados queridos.
E o que fazer? Vamos vivendo... Não assim, respondendo como se fosse uma coisa corriqueira. Vivendo. Que alegria, a vida.
Com seus altos e baixos, suas memórias. Ah! Até essas podem ser roubadas.
E daí? Sem lastimar, vamos nos transformando. Sem indiferença e sem negligência.
O corpo de agora é onde tudo se manifesta. Cuide dele com carinho e respeito. Não deixe ficar balofo, doente, estressado. Cuide com o cuidado de quem só tem um. Não dá para trocar na loja. Remendos são caros e complicados. Vamos cuidar de nossa vida. A morte nos espreita, aguarda-nos. Não sinistra e temerosa. Mas nos leva sorrateira a uma viagem amorosa pelo passado e pelo futuro. Fale comigo agora. Hoje. Amanhã pode não vir. Cuide, inclua, compreenda, ajude, transforme. Já. Não há outro dia.

terça-feira, 23 de junho de 2009

100 Dívidas!

Respire fundo porque vamos falar de dinheiro. Poucos assuntos conseguem ser ao mesmo tempo mais estressantes e mais fascinantes. Duvida? Basta ver o que diz a sabedoria popular. Você, com certeza, já ouviu (ou repetiu) algumas das frases a seguir - e pensou no que elas realmente significam:

- Dinheiro não traz felicidade. (dinheiro traz problemas)
- Lave as mãos depois de mexer com dinheiro. (dinheiro é sujo)
- Fulano só pensa em ganhar dinheiro. (fulano deve ser desonesto)
- Não se fala de dinheiro à mesa. (dinheiro é indecente)

Esse preconceito torna mais difícil lidar com o fato de que dinheiro é mais significativo em nossa vida do que o sexo. Duvida? Acesse a internet, abra qualquer ferramenta de busca e exercite um pouquinho seu inglês, a língua oficiosa da rede mundial. Se digitar "sex , você vai encontrar 727 bilhões de páginas. É bastante, mais do que qualquer pessoa pode conseguir ler, mesmo que dedique toda a vida a isso. Porém, se você digitar "money , vai encontrar 1,33 trilhão - isso mesmo, trilhão - de páginas, quase o dobro das menções ao sexo. Não é um acaso. Uma pessoa pode viver sem sexo por opção (ou falta de), mas viver sem dinheiro é impossível, exceto para eremitas que moram em cavernas, cultivam a própria comida e tecem as próprias roupas, trocando o que produzem pelo que precisam.

Na sociedade moderna, a maioria das relações humanas é medida e mediada pelo dinheiro. O dinheiro que você tem define onde você mora, o que come, como se veste e se desloca, sua educação e sua saúde. Por isso, ricos e pobres, materialistas e desprendidos, avarentos e perdulários, todos têm de saber lidar com dinheiro, pois ele permeia todos os aspectos da vida. Essa é a notícia ruim.

A notícia boa é que lidar com dinheiro parece difícil, mas não é: requer apenas a aplicação sistemática de algumas práticas simples. VIDA SIMPI.ES ouviu especialistas e descobriu que os princípios básicos não são complicados. Com um pouco de disciplina, você pode ter uma relação amigável com seu dinheiro. Vamos lá.

Aprenda a controlar


O segredo em lidar com o dinheiro está em uma palavra: sistemática. Lidar com dinheiro é mais ou menos como lidar com a água da casa. Se você gastar mais do que recebe, vai faltar. Você pode consumir ou desperdiçar água, da mesma maneira que pode fazer isso com seu dinheiro. Ao tomar um copo de água em um dia quente de verão, você está usando muito bem um recurso precioso. Se deixar uma torneira aberta enquanto escova os dentes, é um desperdício. Com o dinheiro, é a mesma coisa.

O problema é que somos convocados a gastar a cada momento. Faça um exercício simples na próxima vez que sair à rua. Tente contar quantas mensagens dizendo "compre meu produto" chegam até você nos primeiros cinco minutos de percurso. Podem ser placas, faixas, mensagens em ônibus, comerciais de rádio e mensagens no telefone celular, ou até mesmo o tradicional alto-falante gritando "Pamonhas, pamonhas, pamonhas". Se estiver caminhando ou dirigindo por um trecho urbano, você verá pelo menos dez mensagens, duas por minuto.

Com tantos estímulos, é fácil perder o controle de quanto você gasta. Cheques pré-datados, cartão de débito e cartão de crédito foram pensados para facilitar o consumo, não para garantir a saúde financeira do consumidor. Essa responsabilidade é sua. E aí não tem jeito. É preciso controlar, uma atividade que tem de ser tão rotineira quanto escovar os dentes. Por isso, a regra de ouro para lidar com seu dinheiro é a seguinte: gastou? Anote.

Parece simples demais, mas você não faz idéia de como anotar todos os seus gastos ajuda a controlar suas finanças. Isso quer dizer exatamente todos. Mesmo que sejam 10 centavos para comprar uma bala na padaria da esquina. Depois de três meses adotando essa disciplina, reserve uma tarde de domingo, arme-se de coragem, abra uma garrafa de vinho ou acenda um incenso e analise cuidadosamente seus gastos. Some todas as vezes que você comprou roupas que nunca usou, livros que nunca leu, quando saiu para comer fora sem realmente estar com vontade.

Você vai se encher de horror ao perceber que 1) gasta muito dinheiro e 2) uma boa parte dos seus gastos é desnecessária. Ao anotar cada centavo que sai do seu bolso, você poderá tomar cuidado para evitar os vazamentos. "Sem controle, é fácil gastar demais", diz Marcos Crivelaro, PhD em finanças e professor da Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap). "Controlando, a pessoa pode calcular se está usando bens o dinheiro."

Funciona? Um exemplo deve motivar você. O banqueiro americano John Pierpont Morgan (1837-1913) foi um dos homens mais ricos do mundo. Tinha tanto dinheiro que seu banco funcionava como Banco Central dos Estados Unidos, que na época não tinham essa instituição. Morgan organizou a maior siderúrgica e a maior ferrovia do mundo e boa parte das obras de arte que se encontram no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, veio de sua coleção pessoal. Alguém tão rico não precisaria se preocupar com os gastos, mas em uma viagem a França perto dos 70 anos, Morgan anotou em um dos cadernos que sempre levava consigo que havia gasto 10 centavos para comprar uma garrafa de água.

O essencial é descobrir uma ferramenta de controle que seja uma solução, não um problema. Há vários programas de computador dedicados ao controle de gastos. Uma rápida busca na internet indica 12,1 milhões de páginas com menções ao tema, mas não se preocupe se você não se sentir à vontade cone computadores. Lápis e papel também funcionam desde que você anote e controle seus gastos. Quando isso se tornar um hábito, você estará pronto para adotar a segunda regra do dinheiro, que é planejar seus gastos antecipadamente.

A regra para lidar com o dinheiro é a seguinte: gastou? Anote. Você aprende a controlar

Planeje seus gastos
Vamos começar de um exemplo prático. No dia 20 de novembro, a maioria dos trabalhadores regulares recebeu o adiantamento do 13° salário. A primeira tentação é correr para o shopping. Só não se esqueça de que, mais ou menos 60 dias depois de receber esse dinheiro, você terá de pagar a primeira parcela do IPTU. Mais algumas semanas e você precisará pagar IPVA. São gastos pesados. Inevitáveis, já que o governo não perdoa. E, principalmente, você pode pagar menos imposto se liquidar a fatura à vista, na primeira prestação. Para isso, você precisa ter dinheiro no bolso - por exemplo, o que você recebeu como 13° salário.

Não é justo que você tenha de trabalhar todo um ano para entregar aquele sofrido salário a mais para o governo, um notório mau gastador. Por isso mesmo, o ideal é planejar seus gastos do início do ano, como impostos, matrícula e material escolar dos filhos e uma viagem de férias ou na virada do ano, que ninguém é de ferro. Ao controlar seus gastos e conseguir poupar um pouco, você terá dinheiro para as despesas de verão sem ter de entrar no cheque especial e ficar pagando juros até novembro de 2009, quando receber de novo o 13°.

Como planejar? Não é difícil. Você tem dois grandes grupos de despesas: as previsíveis e as imprevisíveis. As previsíveis são mensais, como comida, transporte, combustível, aluguel ou condomínio, água, eletricidade, telefone e conexão à internet. Você também tem despesas previsíveis anuais, como o IPVA, IPTU, matrícula escolar dos filhos e seguro do carro. Agora que você está anotando seus gastos, você sabe quais são suas despesas mensais. Resta agora calcular quanto serão as despesas anuais.

Uma boa estimativa é descobrir quanto você pagou no início de 2008, acrescentar uma inflação de mais ou menos 6% (basta multiplicar por 1,06) e você saberá um valor aproximado. Some todas as despesas anuais e divida esse valor por 12. Pronto: você já descobriu quanto terá de poupar todos os meses para nunca mais entrar no cheque especial. Guardando esse dinheiro, você não precisará entrar no vermelho no início de 2010 ou ver seu suado 13º passando rapidamente pela sua conta e partindo para nunca mais voltar.

Falando em cheque especial, vamos falar dos bancos. Eles são ótimos: guardam nosso dinheiro, pagam nossas contas e até nos concedem crédito quando precisamos. Bancos são essenciais para o funcionamento da economia, mas eles não fazem nada de graça. Por isso, você tem de saber lidar com eles.

A palavra-chave para lidar com os bancos é relacionamento. Quanto mais negócios o cliente fizer com eles, mais vantagens terá. Por isso, concentre todas as suas contas a pagar em um único banco e prefira o débito automático.

Há várias vantagens. Você não paga nada com atraso, não pega fila e é recompensado pelo banco, que não quer você na agência. Atender um cliente na agência faz o banco gastar dinheiro com caixas, seguranças, aluguel e limpeza. Evitando essa despesa, você ganha pontos. Acumule pontos suficientes e você não vai pagar tarifas, economizando mais ainda e não precisando pedir empréstimos.

O cheque especial e o cartão de crédito são os empréstimos mais fáceis de obter. Não é necessário pedir, eles já estão lá, aprovados. Essa facilidade, claro, tem preço: mais ou menos 9% ao mês, ou 181% ao ano. Isso mesmo. Se você financiar 1000 reais no cheque especial por um ano, sua dívida vai crescer para 2 813 reais, mais ou menos. Portanto, nunca entre no cheque especial. É muito mais negócio tirar dinheiro da poupança e pagar uma dívida do que se financiar com essas taxas.

Todas essas recomendações são muito simples. Requerem apenas controle, um pouco de disciplina e a convicção de que você pode viver melhor se tiver domínio sobre o seu dinheiro. Vai até sobrar para investir. Sim, você pode se tornar um investidor. Você verá.

A poupança é mais segura, mas rende pouco. Descubra que há outras opções

Como investir


Investir dinheiro começa com a decisão de não gastar todo o seu salário e guardar um pouco para gastar depois. É a velha estratégia de poupar para fazer uma compra grande à vista, não pagando juros e pedindo desconto. Para sofisticar um pouco mais, você coloca seu dinheiro para trabalhar enquanto a hora de pagar não chega. Para isso, há um universo de produtos financeiros de investimento à sua disposição. Aqui, vamos falar dos três investimentos mais simples, as cadernetas de poupança, os Certificados de Depósito Bancário (CDB), os fundos de investimento de renda fixa e os fundos de previdência privada.

As cadernetas de poupança são o mais simples, democrático e seguro dos investimentos. É simples porque você aplica seu dinheiro hoje e daqui a 30 dias recebe o dinheiro que aplicou e um pouquinho a mais. A poupança é democrática: se você investir 50 reais ou 10 milhões de reais, vai obter a mesma rentabilidade. "Também é isenta de imposto e é segura por ser garantida até 60 mil reais. A desvantagem é que todo esse conforto tem preço, pois o investidor ganha muito pouco ao aplicar na poupança, cerca de 8% ao ano.

Como obter o melhor da poupança? Não há nenhuma diferença entre elas, por isso não adianta tentar melhorar sua rentabilidade. O que você pode fazer é usar a poupança como um trunfo na hora de negociar com o banco, escolhendo aplicar onde obtiver mais vantagens, como tarifas menores.

Os CDBs são um pouco mais sofisticados. Um banco precisa de capital para emprestar, por isso ele toma dinheiro emprestado de quem tem caixa, vendendo CDB. Eles provam que as pessoas não são iguais em termos financeiros. Os bancos pagam juros maiores para quem investe mais. Além disso, quem investe em CDB não recebe tudo o que ganhou. Eles não são isentos de imposto e é preciso dividir parte do ganho com o governo, que pode cobrar de 22,5 a 15% do ganho, dependendo do prazo da aplicação. Investimentos menores que seis meses pagam 22,5%. Aplicações mais longas pagam menos e quem deixar seu dinheiro aplicado por mais de dois anos paga 15%. Apesar dessa mordida do Leão, os CDBs têm rendido mais do que a poupança.

Como obter o melhor dos CDBs? Quanto mais dinheiro e mais tempo você tiver, melhor. Não espalhe suas aplicações por vários bancos. Reúna todo o valor e negocie uma boa taxa. E negocie bastante com o gerente, pois a regra do banco é nunca oferecer a melhor taxa logo de saída. É possível ganhar mais se você barganhar um pouco, especialmente se chegar à agência com uma grande quantia, acima de 50 mil reais, por exemplo.

O terceiro instrumento financeiro são os fundos de investimento, que funcionam como o condomínio que administra um edifício. Cada investidor é proprietário de um pedaço do fundo, e todos concordam em contratar um profissional para gerir o dinheiro. Ele realiza o trabalho cansativo de analisar continuamente as condições do mercado financeiro e ligar todos os dias para os bancos em busca das melhores remunerações. Para realizar o trabalho, esse profissional fica com uma parte do dinheiro investido, cobrando uma taxa de administração, que pode variar de 1 a 4% ao ano, e é descontada um pouco por dia.

Como obter o melhor de um fundo? Procure bastante pela taxa de administração e sempre escolha a menor. À primeira vista, pagar uma taxa de 1% não é muito diferente de pagar uma taxa de 1,5%, No entanto, a cada 100 mil reais aplicados você vai economizar 500 reais por ano se trocar o fundo que cobra 1,5% pelo fundo que cobra 1%.

Para finalizar, vamos falar de um tipo especial de fundo, os produtos de previdência privada, conhecidos por nomes complicados, como Plano Gerador de Benefícios Livres (PGBL) e Vida Gerador de Benefícios Livres (VGBL). O princípio básico desses fundos é que sua vida tem duas grandes fases financeiras. No início, você trabalha e ganha dinheiro. Depois, quando o tempo passa, você deixa de trabalhar e passa a viver do dinheiro que ganhou.

O PGBL e o VGBL são produtos financeiros destinados a facilitar a acumulação do seu dinheiro. São como os fundos de investimento, mas têm duas diferenças. A primeira, no caso dos PGBLs, é que você pode descontar o que investiu do seu Imposto de Renda a pagar, limitado a 12% de sua renda anual. Se você não gastar esse dinheiro poupado mas investi-lo no PGBL, vai acumular capital mais depressa para financiar sua aposentadoria. A desvantagem do PGBL é que você paga imposto sobre tudo o que resgatar. Os VGBLs não oferecem essa vantagem tributária na hora da aplicação, mas em compensação só cobram imposto sobre o que você ganhou, não sobre o total.

Como obter o melhor desses fundos? Antes de mais nada, tenha certeza das taxas que esses fundos cobram. Além das taxas de administração, os fundos podem cobrar taxas de carregamento, que funcionam como um pedágio na hora de investir dinheiro. Você deposita 100 reais, mas só investe 97, por exemplo. Os três reais de diferença são cobrados pelo banco ou pela seguradora para cobrir os custos do fundo. Procurar bem, aqui, é essencial.

A segunda pegada dos fundos de previdência é uma vantagem tributária. Nos fundos normais e nos CDBs, quem deixar o dinheiro aplicado por dois anos paga 15% de imposto sobre o que ganhou. Os fundos de previdência privada cobram menos. A alíquota mais baixa é de 10%, a menor de todo o mercado. Só que o dinheiro tem de ficar investido por dez anos. Você pode trocar de fundo, um recurso conhecido como portabilidade, mas não pode pôr o dinheiro no bolso. Senão perde a vantagem.

Agora, é só começar 2009 com novas propostas para seu dinheiro. Em 2010, com certeza você terá muito mais alegrias nessa área.


INTERNET : Confira outras matérias sobre organização em:
www.revistavidasimples.com.br


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Pergunta pra quem quiser responder...

O MUNDO TEM CONSERTO?
Não
Além de pessimista, sou também lacônico.Se me perguntassem se o mundo tem conserto, minha resposta seria essa aí em cima
POR J. R. DURAN*


As montadoras de automóveis instaladas no Brasil fizeram festa outro dia. Soltaram rojões e palavrões de satisfação. Se tratava, apenas, de uma comemoração: as montadoras tiveram de refazer pela terceira vez as projeções de vendas e descobriram até dezembro 2,4 milhões de unidades no país. Isso é um crescimento de quase 25% sobre o ano anterior. Toma gás carbônico. Toma chocolate ("pára de chorar, pára de chorar, pára de chorar", como diz a letra da música). Alegria de uns, arrepio de outros. No mesmo dia leio no jornal que a "Amazônia pode acabar em 40 anos". É capaz, espero que não e que ainda esteja vivo quando essa data chegar. Mas é capaz, também, que essa data esteja errada. Pelo andar da carruagem humana e pelos sinais de extrema estupidez que ela tem emitido através dos séculos pode até ser que ela se antecipe. Sou um pessimista esclarecido. Acredito que o pior pode acontecer quando tenho certeza de que o pior realmente vai acontecer. Explico um pouco melhor. Tenho um amigo, o Arnaldo, que sempre diz que o que está para acontecer está sempre escrito nas paredes (esta é uma imagem bíblica, do Novo Testamento: quando um grupo de pessoas recebe um aviso de Deus, ele é feito através de uma misteriosa mão que escreve na parede o aviso do que vai acontecer). Enfim, acho que o Arnaldo tem razão. Acho que os desastres são sempre anunciados e o ser humano não quer ver (não tem pior cego que aquele que não quer enxergar, já diz o ditado lá em Pirapora do Bom Jesus).

Bem, no mesmo dia em que leio essas duas notícias no jornal (o mesmo O Estado de S. Paulo de 5 de outubro de 2007), meu coração se encolhe ainda mais quando é informado pelos meus olhos que estão lendo um "informe publicitário". Nele os fabricantes de plásticos e sacolas plásticas nos informam que estão juntos para nos dizer que devemos estudar com muita calma (nesta hora) esta coisa que ficou na moda de não utilizar sacolas plásticas. Opa! Uma coisa de cada vez. A primeira delas. Me surpeende que só agora alguns descolados tenham descoberto que sacolas plásticas não são biodegradáveis e demoram um caralhão de anos em desaparecer da face da terra. Isso todos sabem, ou deveriam saber, faz muito tempo. E, faz muito tempo também, ninguém se importa. A primeira coisa que um gringo faz, quando chega ao Brasil, é comprar uma sacola de feira daquelas bem coloridas e se achar altamente original. A última coisa que uma pessoa faz neste país é ir às compras com uma bolsa de feira. Cansei de explicar para o rapaz que vende jornal, que vende e aluga as fitas na videolocadora, que vende flores, que vende sei-lá-o-que que não quero uma bolsinha de plástico. Me olham como se eu fosse um cretino. Devo ser, porque não me importo em segurar duas fitas em uma mão (coisa que não me parece extremamente difícil) assim como um par de livros ou um jornal.


AONDE QUERO CHEGAR?


Na verdade, não sei. Mas tenho certeza de que não chegaremos a lugar nenhum. De um lado aumentamos a produção de carros em 25%, de outro parece que sabemos que a Amazônia vai para casa do caralho (imagina agora com a febre do etanol que nos transformará em fodões de primeira linha no cenário mundial de combustíveis), na outra ponta as pessoas estão descobrindo agora que sacolas de plástico são como um câncer para a natureza (deve estar fazendo efeito porque um "informe publicitário" é sempre uma peça de propaganda produzida com a máxima rapidez para responder a algum tipo de situação crítica).

Os lacônicos foram um dos povos de Esparta, na antiga Grécia, que tiveram de lutar contra os macedônios. Um dia o exército comandado por Felipe de Macedônia, o pai de Alexandre, o Grande, mandou um emissário com a seguinte mensagem: "Se eu entrar em Lacônia com meu exército, arrasarei a Esparta até não sobrar nada". Os espartanos responderam (tinham colhões os rapazes) com uma simples palavra: "Se". Além de pessimista, sou também lacônico. Se me perguntassem se o mundo tem conserto, minha resposta seria: não. Não por causa do estado de saúde dele, do mundo - mas por causa do estado de saúde mental da maioria dos habitantes do planeta.

E você? O que pensas disso?!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Para acalmar e descansar.


Existe uma história zen sobre um homem e um cavalo. O cavalo está galopando rapidamente, e parece que o homem que cavalga se dirige a algum lugar importante. Outro homem, em pé ao lado da estrada, grita: "Aonde você está indo?" e o homem a cavalo responde: "Não sei. Pergunte ao cavalo!" Esta é a nossa história. Estamos todos sobre um cavalo, não sabemos aonde vamos e não conseguimos parar. O cavalo é a força de nossos hábitos que nos puxa, e somos impotentes diante dela. Estamos sempre correndo, e isso já se tornou um hábito. Estamos acostumados a lutar o tempo todo, até mesmo durante o sono. Estamos em guerra com nós mesmos, e é fácil declarar guerra aos outros também.

Precisamos aprender a arte de fazer cessar — parar nosso pensamento, a força de nossos hábitos, nossa desatenção, bem como as emoções intensas que nos regem. Quando uma emoção nos assola, ela se assemelha a uma tempestade, que leva consigo a nossa paz. Nós ligamos a TV e depois a desligamos, pegamos um livro e depois o deixamos de lado. O que podemos fazer para interromper este estado de agitação? Como podemos fazer cessar o medo, o desespero, a raiva e os desejos? É simples. Podemos fazer isso através da prática da respiração consciente, do caminhar consciente, do sorriso consciente e da contemplação profunda - para sermos capazes de compreender. Quando prestamos atenção e entramos em contato com o momento presente, os frutos que colhemos são a compreensão, a aceitação, o amor e o desejo de aliviar o sofrimento e fazer brotar a alegria.

Mas a força do hábito costuma ser mais forte do que nossa vontade. Dizemos e fazemos coisas que não queremos e depois nos arrependemos. Causamos sofrimento a nós mesmos e aos outros, e de forma geral produzimos grande quantidade de destruição. Podemos ter a firme intenção de nunca mais fazer isso, mas sempre acabamos fazendo de novo. Por quê? Porque a força do hábito "vashana" acaba vencendo e nos levando de roldão.

Precisamos da energia da atenção plena para perceber quando o hábito nos arrasta, e fazer cessar esse comportamento destrutivo. Com atenção plena, temos a capacidade de reconhecer a força do hábito a cada vez que ela se manifesta. "Alô força do hábito, sei que você está aí!" Nessa altura, se conseguirmos simplesmente sorrir, o hábito perderá grande parte de sua força. A atenção plena é a energia que nos permite reconhecer a força do hábito e impedi-la de nos dominar.

Por outro lado, o esquecimento ou negligência é o oposto.

Tomamos uma xícara de chá sem sequer perceber o que estamos fazendo. Sentamo-nos com a pessoa que amamos mas não percebemos que a pessoa está ali. Andamos sem realmente estar andando. Estamos sempre em outro lugar, pensando no passado ou no futuro. O cavalo dos nossos hábitos nos conduz, e somos prisioneiros dele. Precisamos deter este cavalo e resgatar nossa liberdade. Precisamos irradiar a luz da atenção plena em tudo o que fizermos, para que a escuridão do esquecimento desapareça. A primeira função da meditação — shamatha — é fazer parar.

A segunda função da shamatha é acalmar. Quando sofremos uma emoção forte, sabemos que talvez seja perigoso agir sob sua influência, mas não temos força nem clareza suficientes para nos abstermos. Precisamos aprender a arte de respirar, de inspirar e expirar, parando tudo o que estamos fazendo e acalmando nossas emoções. Precisamos aprender a nos tornar mais estáveis e firmes, como se fôssemos um carvalho, e não nos deixar arrastar pela tempestade de um lado para outro. O Buddha ensinou uma variedade de técnicas para nos ajudar a acalmar corpo e mente, e considerar a situação presente em toda a sua profundidade. Essas técnicas podem ser resumidas em cinco estágios:

1. Reconhecimento: se estamos zangados, dizemos "reconheço que a raiva está dentro de mim".

2. Aceitação: quando estamos zangados, não negamos a raiva. Aceitamos aquilo que está presente em nós.

3. Acolher: abraçamos a raiva como faz uma mãe com o filho que chora. Nossa atenção plena acolhe a emoção, e só isso já é capaz de acalmar a raiva e a nós mesmos.

4. Olhar em profundidade: quando nos acalmamos o suficiente, conseguimos observar profundamente para entender o que provocou a raiva, ou seja, o que está fazendo o bebê chorar.

5. Insight: o fruto do olhar profundo é a compreensão das causas e condições, tanto primárias quanto secundárias, que provocaram a raiva e fizeram nosso bebê chorar.

Talvez ele esteja com fome. Talvez o alfinete da fralda o esteja machucando. Talvez nossa raiva tenha surgido quando um amigo nos falou em um tom ofensivo, mas de repente nos lembramos de que essa pessoa não está bem hoje porque seu pai está muito doente. Continuamos a refletir dessa forma até compreendermos a causa de nosso atual sofrimento. A compreensão nos dirá o que fazer ou não fazer para mudar a situação.

Depois de nos acalmarmos, a terceira função da shamatha é o repouso. Suponha que alguém nas margens de um rio joga uma pedra para o ar e a pedra cai no rio. A pedra afunda lentamente e chega ao fundo do rio sem esforço algum. Depois que a pedra chega ao fundo do rio, ela descansa, deixando que a água passe por ela. Quando sentamos para meditar podemos nos permitir repousar da mesma forma que essa pedra. Podemos nos deixar afundar naturalmente, na posição sentada — repousando, sem fazer esforço. Temos que aprender a arte de repousar, permitindo que nosso corpo e nossa mente descansem. Se tivermos feridas em nosso corpo e em nossa mente precisamos repousar para que elas possam por si só se curar.

O ato de se acalmar produz o repouso, e o descanso é um pré-requisito para a cura. Quando os animais selvagens estão feridos, eles procuram um lugar escondido para deitar, e descansam completamente por muitos dias. Não pensam em comida nem em mais nada. Apenas descansam, e com isso obtêm a cura de que precisam. Quando nós seres humanos ficamos doentes, nos preocupamos o tempo todo. Procuramos médicos e remédios, mas não paramos. Mesmo quando vamos para a praia ou para as montanhas com a intenção de descansar, não chegamos realmente a repousar, e voltamos mais cansados do que partimos. Temos que aprender a repousar. A posição deitada não é a única posição de descanso que existe. Podemos descansar muito bem durante meditações sentados ou caminhando. A meditação não deve ser um trabalho árduo. Simplesmente permita que seu corpo e sua mente descansem, como o animal no mato. Não lute. Não há necessidade de fazer nada nem realizar nada. Eu estou escrevendo um livro, mas não estou lutando. Estou descansando. Por favor, leiam este livro de uma forma alegre e relaxante. O Buddha disse: "Meu Dharma é a prática do não-fazer."1 Pratiquem de uma forma que não seja cansativa, mas que seja capaz de proporcionar descanso ao corpo, às emoções e à consciência. Nosso corpo e mente sabem curar a si mesmos se lhes dermos uma oportunidade para isso.

Parar, acalmar-se e descansar são pré-requisitos para a cura. Se não conseguirmos parar, nosso ritmo de destruição simplesmente vai prosseguir. O mundo precisa imensamente de cura. Os indivíduos, comunidades e países estão cada vez mais necessitados de cura.

Thich Nhat Hanh, A Essência dos Ensinamentos do Buda (Editora Rocco)
(Thich Nhat Hanh. A essência dos ensinamentos de Buda:como transformar o sofrimento em paz, alegria e liberação.Coleção Arco do tempo. Tradução de Anna Lobo.Rio de Janeiro: Rocco, 2001.)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Mantra da Unificação



Mantra da Unificação

" Os filhos dos homens são um

e eu sou um com eles.
Procuro amar e não odiar.
Procuro servir e não exigir serviço.
Procuro curar e não ferir.

Que a dor traga a devida recompensa,
que o amor controle a forma externa,
a vida e tudo o que ocorre.
E traga à luz o amor
Que subjaz nos acontecimentos do tempo.

Que venham a visão e a percepção internas
que porvir se revele.
Que a união interna se demonstre
que as rupturas externas se afastem
que o amor prevaleça
que todos os homens amem."

Alice A. Bailey

Manchester, 16 de Junho de 1880 — 15 de Dezembro de 1949


quarta-feira, 29 de abril de 2009

Estatuto dos Animais







Fica Decretado...


Art . I Fica decretado que agora vale a Vida, e todas as formas de crueldade serão abolidas das festas, pesquisas e brincadeiras dos humanos.


Art. II Fica decretado que as hierarquias serão abolidas e, todos os seres viventes, independente da forma ou tamanho, terão o mesmo direito à vida, vida em abundância.


Art. III Fica decretado que, todos os dias os pássaros poderão fazer seus ninhos nos galhos baixos das árvores, pois homem cuidará dele, com o mesmo cuidado com que cuida dos seus filhos.


Art. IV Fica decretado que, a partir deste instante, haverá bebedouros de beija-flor em todas as janelas, que os canários e galos, nunca mais serão treinados para brigas, mas para cantar, todas as manhãs, quando o Sol se levantar no horizonte.


Art. V Fica decretado que, o lobo e o cordeiro, poderão pastar juntos, ao lado dos humanos, sem medo de serem alvejados ou caírem em armadilhas.


Art. VI Fica estabelecido que as mães-peixes terão seus filhotes, sem o risco de serem capturadas, durante a gravidez. Os cavalos não serão mais açoitados, os cães e gatos não precisarão, nunca mais, fugir das mãos cruéis dos humanos. Todos os filhotes e animais velhos e debilitados serão acolhidos com carinho e respeito.


Parágrafo único As borboletas voarão livres, trazendo em suas asas, os sussurros do vento e as serpentes rastejarão sobre a relva, trazendo o murmúrio da terra...e o homem silenciará para ouvi-las.


Art. VII A adrenalina nunca mais será utilizada como tempero da carne que alimenta o homem, assim como o lamento de dor, não mais servirá como música para rodeios, rinhas, circos, vaquejadas...


Art. Final A partir deste instante, humanos e animais farão parte da mesma família e, como tal, serão irmãos. E essa família, cuidará do planeta com o mesmo cuidado com que um bem-te-vi cuida do ninho ou um humano cuida do berço do primeiro filho.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Disciplina Espiritual






Por Georg Feuerstein




DISCIPLINA - ISTO É, a regulação ordenada da mente - é um pré-requisito fundamental do progresso espiritual. Há aqueles que pensam que o despertar espiritual, ou iluminação, é espontâneo e não exige nenhuma ação da nossa parte. Alguns chegam a considerar todo e qualquer esforço como um obstáculo à iluminação, mas essa idéia não abarca toda a verdade. É certo que todos os grandes sábios afirmaram que a iluminação é o nosso estado natural, mas também sempre insistiram na necessidade e uma preparação adequada. Se alguns santos, como Ramana Maharshi, alcançaram a iluminação aparentemente sem esforço, temos de ter certeza de que eles se prepararam por muitas existências para esse momento auspicioso. É essa a explicação tradicional do seu despertar instantâneo. Sem a noção do renascimento, porém, só nos resta uma outra explicação – a saber, a de que sua iluminação aconteceu por acaso; eles tiveram sorte. Se aceitássemos isso, teríamos de pressupor também que todo esforço espiritual é pura perda de tempo. Nesse caso, poderíamos viver como quiséssemos e esperar pelo melhor. Mas é exatamente isso que, atualmente, a imensa maioria das pessoas optou por fazer, e o destino individual que alcançaram não e segredo para ninguém: em vez de serem livres, sofrem de uma infelicidade tremenda.
Deixando de lado toda discussão metafísica sobre a natureza da iluminação e como ela se realiza, não podemos negar que progredimos espiritualmente na consciência, na felicidade e na capacidade de autotranscendência - em virtude de nossa aplicação aos valores e ideais espirituais. A palavra aplicação, neste contexto, significa a tradução desses ideais ou valores para a prática cotidiana. E exatamente a isso que se refere o conceito sânscrito de sâdhana ou disciplina espiritual. A palavra é derivada da raiz verbal sâdh, que significa "realizar". A mesma raiz dá origem às palavras siddhi (realização ou perfeição) e siddha (ser realizado ou adepto). A realização se dá em diversos níveis, e entende-se que o último deles seja a iluminação. O siddha é, em geral, o adepto que alcançou a iluminação. A pessoa que pratica uma disciplina espiritual é chamada um sâdhaka, quando é homem, ou uma sâdhikâ, quando é mulher.
A disciplina espiritual é acima de tudo e antes de mais nada o treinamento da mente, isto é, o disciplinamento daqueles aspectos da nossa vida interior que nos impedem de realizar nossa iluminação inata ou natural. Que aspectos são esses? O mais importante de todos os bloqueios é nossa ignorância (avidyâ) da Realidade tal como ela é: ou seja, nossa cegueira espiritual básica, que não só nos impede de ver a Realidade como também a distorce e a apresenta para nós de maneira enganosa. Essa distorção e esse engano expressam-se na ilusão de que somos separados de todos os outros seres e coisas. São funções da asmitâ ("qualidade de ´eu sou`”) ou do ahamkâra ("factor do eu"), a personalidade egóica, que faz de cada um de nós uma ilha no meio de um mundo supostamente hostil, no qual temos de lutar pela sobrevivência. Tudo isso também pode se resumir sob o nome de "ilusão" (moha).

Um dos aspectos de moha é a noção de que pensar sobre a iluminação é suficiente para realizá-la. Não poucos praticantes ocidentais caíram vítimas desse erro por não terem compreendido a distinção entre a compreensão intelectual ou mental e o conhecimento verdadeiro. A primeira permanece no nível abstrato e teórico, ao passo que o segundo representa o influxo da sabedoria na mente, que provoca a verdadeira transformação interior seguida de adequadas mudanças de comportamento. Podemos já ter compreendido, por exemplo, que vivemos a maior parte da nossa vida num estado de sonambulismo; mas essa compreensão não basta para nos despertar. Temos também de praticar em todos os momentos a autoconsciência ou a recordação do nosso Verdadeiro Ser. Ou senão, para dar outro exemplo, podemos já ter reconhecido que somos infelizes e buscamos erroneamente a felicidade nos objetos externos; esse reconhecimento por si só, porém, não basta para nos dar a felicidade; temos também de parar de tentar arrancá-la à força dos seres e das coisas, e temos de tomar as medidas necessárias para descobri-la dentro de nós.

A ignorância da nossa verdadeira natureza (que é eternamente livre, feliz e luminosa) e a falsa noção de "eu" que nasce dessa ignorância também geram em nós um estado fundamental de medo (bhaya). Esse medo pode se manifestar sob as formas de medo de uma outra pessoa, medo da mudança, medo do desconhecido, medo da morte, etc. O medo destrói nossa felicidade e liberdade naturais. Também pode nos impedir de encetar a prática espiritual.
Outro resultado da ignorância e do egocentrismo fundamentais é uma atitude de cobiça ou ganância (lobha) em relação à vida. Acumulamos à nossa volta um sem-número de coisas para esconder o medo e a sensação de mediocridade e para reforçar a falsa noção de que somos um ser independente, uma personalidade egóica existente por si mesma. A cobiça, como o medo, assume muitas formas, entre as quais o que se pode denominar de "consumismo espiritual" - a comuníssima atitude de acumular mestres e doutrinas como se fossem os valiosos objetos de uma coleção. Uma vez que a vida espiritual se baseia na autotranscendência sincera e na disciplina coerente e constante, ela não pode ser "comprada". O consumismo espiritual só nos da acesso às falsificações e contrafações da espiritualidade, as quais não podem nem jamais poderão nos conduzir à felicidade e à liberdade verdadeiras.
A ignorância espiritual e o egocentrismo também se manifestam na raiva ou ira (krodha), uma emoção particularmente negativa que tenciona a destruição daquele que a tem e de todos os outros. Num contexto espiritual, a raiva se apresenta na rejeição colérica de qualquer tipo de disciplina, bem como dos mestres e doutrinas que defendem e propõem uma tal disciplina. A personalidade egóica, por uma tendência própria, não quer mudar nem quer sofrer nenhum tipo de interferência. Porém, todas as práticas espirituais foram criadas exatamente para romper as barreiras do ego de tal modo que a luz do Si Mesmo (âtman) possa entrar e reintegrar o ser humano com o restante do universo.
No decorrer dos milênios, os grandes mestres do Yoga desenvolveram numerosos sistemas de treinamento da mente que atendem às exigências da iluminação (bodha). Todos têm por objetivo a eliminação da ignorância, do egocentrismo, do auto-engano, da cobiça, da ira e de outros obstáculos à iluminação. Qualquer que seja o sistema adotado, todos exigem duas coisas: constância na prática (abhyâsa), de um lado, e impassibilidade (vairâgya) ou indiferença aos desejos, de outro. A prática, ou disciplina constante, tem o objetivo de penetrar a ilusão do ego e assim revelar a Realidade, ao passo que a impassibilidade é o meio pelo qual podemos nos livrar dos lastros indesejáveis que estorvam nosso caminhar rumo à realização da liberdade e da felicidade verdadeiras. Juntas, a prática e a impassibilidade nos conduzem até a iluminação. Passo a passo, renunciando a tudo o que mascara a Realidade, realizamos nossa verdadeira natureza. Porém, é preciso dar esses passos. O simples pensamento não nos levará a lugar algum. Só o órgão da sabedoria – buddhi - tem o poder de nos transformar de modo a fazer brilhar nossa natureza original. Os mestres do Yoga nos garantem que sempre fomos, somos e seremos iluminados, mas esse fato tem de se tornar para nós o objeto de uma apercepção imediata e contínua. E essa realização só pode se dar por meio da disciplina espiritual.