terça-feira, 15 de setembro de 2009

A Necessidade de Aprovação e Reconhecimento


Por Osho



Querido Osho, Por que sinto necessidade de obter aprovação e de ser reconhecido, especialmente em meu trabalho? Isso me coloca numa armadilha – eu não consigo fazer as coisas sem isso. Eu sei que estou nessa armadilha, mas eu fui pego nela e não vejo como sair.


Você poderia me ajudar a encontrar a porta?
“A questão é do Kendra.


É preciso lembrar que a necessidade de obter aprovação e de ser reconhecido é uma questão que diz respeito a todo mundo. A estrutura de toda a nossa vida é essa que nos foi ensinada: a menos que exista um reconhecimento, nós somos ninguém, nós não temos valor. O trabalho não é o importante, mas sim o reconhecimento.


E isso coloca as coisas de cabeça para baixo. O trabalho deveria ser o importante – uma alegria em si mesmo. Você deveria trabalhar, não para ser reconhecido, mas porque você curte ser criativo, você ama o trabalho em si mesmo.


Existiram poucas pessoas como Vincent Van Gogh, capazes de escapar da armadilha que a sociedade lhes impingiu. Ele continuou pintando – com fome, sem casa, sem agasalhos, sem remédios, doente – mas ele continuou pintando. Nem uma pintura sequer estava sendo vendida, não havia reconhecimento de parte alguma, mas o estranho era que em tais condições ele ainda era feliz – feliz porque era capaz de pintar o que queria pintar. Reconhecido ou não, o seu trabalho era intrinsecamente valioso.


Aos trinta e três anos ele cometeu suicídio – não por causa de alguma miséria ou angústia, mas simplesmente porque ele havia pintado o seu último quadro, um pôr-do-sol, no qual havia trabalhado por quase um ano. Ele tentou dezenas de vezes e destruiu, porque não havia atingido aquele seu padrão. Finalmente ele conseguiu pintar o pôr-do-sol da maneira como desejava.


Ele cometeu suicídio escrevendo uma carta para seu irmão, ‘Eu não estou cometendo suicídio por desespero. Eu estou cometendo suicídio por não mais existir qualquer motivo para continuar vivendo – o meu trabalho está concluído. Além disso, tem sido difícil encontrar alternativas para meu sustento. Até aqui as coisas estavam indo bem, porque eu tinha algum trabalho para fazer, algum potencial dentro de mim precisava se exteriorizar, tinha que florescer. De modo que agora, não há sentido em viver como um mendigo. Eu ainda não tinha pensado e nem mesmo tinha olhado para isso, mas agora essa é a única coisa a ser feita. Eu floresci até o meu limite máximo, eu estou realizado, e agora parece ser apenas uma estupidez ficar me arrastando, procurando alternativas de sustento. Por que razão? Para mim isso não é um suicídio; eu apenas cheguei a uma realização, a um ponto final e alegremente estou deixando o mundo. Alegremente eu vivi e alegremente estou deixando o mundo.’


Agora, após quase um século, cada uma de suas pinturas vale milhões de dólares. Existem apenas duzentas pinturas disponíveis. Ele deve ter pintado milhares, mas elas foram destruídas; e ninguém prestou atenção nelas.


Agora, ter um quadro de Van Gogh significa que você tem um senso estético. O quadro dele traz um reconhecimento para você. O mundo não deu qualquer reconhecimento ao trabalho dele, mas ele nunca se preocupou com isso. E esta deve ser a maneira de ver as coisas: você deve trabalhar se amar aquele trabalho.


Não peça reconhecimento. Se ele vier, aceite-o tranqüilamente; se ele não vier não pense a respeito. A sua realização deve estar no próprio trabalho. E se todos aprendessem esta simples arte de amar o seu trabalho, seja qual ele for, curtindo-o sem pedir por qualquer reconhecimento, nós teríamos um mundo mais belo e mais celebrante. Do jeito que o mundo é, vocês têm estado presos num padrão miserável. O que você faz é bom, não porque você ama fazê-lo, não porque você o faz perfeitamente, mas porque o mundo o reconhece, lhe dá uma premiação, lhe dá medalhas de ouro, prêmios Nobel.


Eles têm tirado todo o valor intrínseco da criatividade e destruído milhões de pessoas – pois você não pode dar prêmios Nobel a milhões de pessoas. E têm criado o desejo por reconhecimento em todo mundo, de modo que ninguém consegue trabalhar em paz, curtindo qualquer coisa que esteja fazendo. E a vida consiste em pequenas coisas. Para as pequenas coisas não existem premiações, nenhum título concedido pelos governos, nenhuma graduação honorária dada pelas universidades.


Um dos grandes poetas do século XX, Rabindranath Tagore, viveu em Bengala, Índia. Ele publicou suas poesias e seus romances em bengali – mas não recebeu qualquer reconhecimento. Então ele traduziu um pequeno livro, GITANJALI, Oferta de Canções, para o inglês. E ele estava consciente de que o original tinha uma beleza que a tradução não tinha e não conseguiria ter – porque essas duas línguas, o bengali e o inglês têm estruturas diferentes, maneiras diferentes de expressar.


O bengali é muito doce. Mesmo se estiver brigando, vai parecer que você está envolvido numa conversação agradável. É uma linguagem muito musical, cada palavra é musical. Essa qualidade não existe no inglês, não pode ser trazida para ele. O inglês tem qualidades diferentes. Mas de alguma maneira ele conseguiu traduzir e a tradução – que é pobre comparada com o original – recebeu o prêmio Nobel. Então, de repente, toda a Índia ficou sabendo. O livro esteve disponível em bengali e em outros idiomas indianos por anos, e ninguém prestava atenção nele.


Todas as universidades quiseram lhe dar um título de Doutor. Calcutá, onde ele vivia, foi a primeira universidade a lhe conceder o título de Doctor of Letters. Ele recusou, dizendo, ‘Vocês não estão dando uma graduação a mim nem estão reconhecendo o meu trabalho, vocês estão dando reconhecimento ao prêmio Nobel, porque o livro esteve aqui de uma forma muito mais bela e ninguém se preocupou em escrever ao menos uma crítica’. Ele recusou-se a receber qualquer doutorado honorário. Ele dizia, ‘Isso é um insulto para mim’.


Jean-Paul Sartre, um dos grandes romancistas e homem de tremendo insight sobre a psicologia humana, recusou o prêmio Nobel. Ele disse, ‘Eu recebi recompensa suficiente enquanto estava criando o meu trabalho. Um prêmio Nobel não consegue acrescentar coisa alguma a isso – ao contrário, ele me joga para baixo. Ele é bom para amadores que estão em busca de reconhecimento, eu já sou bastante velho, eu já desfrutei o suficiente. Eu amei tudo o que fiz.


Essa foi a minha própria recompensa, eu não quero qualquer outra recompensa, porque nada pode ser melhor do que aquilo que eu já recebi.’ E ele estava certo. Mas as pessoas certas são poucas no mundo. O mundo está cheio de pessoas vivendo dentro das armadilhas.


Por que você deve se preocupar com reconhecimento? Preocupação com reconhecimento somente faz sentido se você não ama o seu trabalho, nesse caso ele não tem significado, então o reconhecimento parece ser um substituto. Você detesta o trabalho, não gosta dele, mas você o faz porque será reconhecido, será apreciado e aceito. Ao invés de pensar no reconhecimento, reconsidere o seu trabalho. Você gosta dele? – então ponto final. Se você não gosta, então, troque-o!
Os pais e os professores estão sempre reforçando que você deve ser reconhecido, que deve ser aceito. Esta é uma estratégia muito esperta para manter as pessoas sob controle.


Quando eu cursava a universidade, me disseram repetidas vezes, ‘Você deve parar de fazer essas coisas… Você continua formulando perguntas que sabe perfeitamente bem que não podem ser respondidas e que colocam o professor numa situação embaraçosa. Você tem que parar com isso, caso contrário essas pessoas irão se vingar. Elas têm o poder e poderão reprová-lo.’Eu dizia, ‘Não me preocupo com isso. Neste momento eu estou curtindo formular perguntas e fazê-los sentirem-se ignorantes. Eles não são corajosos o bastante para simplesmente dizer, ‘Eu não sei.’ Desse modo, não haveria qualquer embaraço. Mas eles querem fingir que sabem tudo. Eu estou curtindo isso; a minha inteligência está sendo aguçada. Quem se preocupa com exames? Eles poderão me reprovar apenas quando eu aparecer nos exames – e quem vai aparecer? Se eles estiverem com essa idéia de que podem me reprovar, eu não entrarei nos exames, e repetirei a mesma série. Eles terão que me aprovar pelo simples medo de ter que me encarar por mais um ano novamente.’


Todos eles me aprovaram e me ajudaram a passar porque queriam ficar livres de mim. Aos olhos deles, eu estava destruindo os outros estudantes, porque eles começaram a questionar coisas que, por séculos, eram aceitas sem questionamentos.


Quando eu estava ensinando na universidade, a mesma coisa aconteceu, sob um ângulo diferente. Agora eu estava formulando perguntas aos estudantes para trazer a atenção deles ao fato de que todo o conhecimento que eles tinham acumulado era emprestado e que eles nada sabiam. Eu lhes dizia que não me importava com a graduação deles, eu me importava com a experiência autêntica deles – e eles não tinham nenhuma. Eles estavam simplesmente repetindo os livros, que estavam desatualizados, que já tinha sido provado que estavam errados há muito tempo. Agora as autoridades da universidade estavam ameaçando-me, ‘Se você continuar por esse caminho, atormentando os alunos, você será colocado para fora da universidade.’


Eu disse, ‘Isso é estranho – eu era um estudante e não podia formular perguntas aos professores; agora eu sou um professor e não posso formular perguntas aos estudantes! Então, qual função esta universidade está preenchendo? Este deve ser um lugar onde as perguntas são formuladas, onde os questionamentos começam. As respostas devem ser encontradas na vida e na existência, não nos livros.


Eu disse, ‘Vocês podem me colocar para fora da universidade, mas lembrem-se, estes mesmos estudantes, em nome de quem vocês estão me colocando para fora, irão reduzir a cinzas toda a universidade. Eu disse ao vice-reitor, ‘Você deve vir e ver a minha sala’.


Ele não conseguiu acreditar – na minha sala havia pelo menos duzentos estudantes… E não havia espaço, de modo que eles sentavam em qualquer lugar que encontrassem – nas janelas, no chão. Ele disse, ‘O que está acontecendo, pois tem apenas dez alunos matriculados na sua matéria?’


Eu disse, ‘Essas pessoas vêm para ouvir. Elas abandonam as suas aulas e adoram estar aqui. Esta aula é um diálogo. Eu não sou superior a eles e eu não posso recusar ninguém que queira vir à minha aula. Se ele é meu aluno ou não, não importa, se ele vem me ouvir, então é meu aluno. Na verdade, você deveria me permitir utilizar o auditório. Estas salas de aula são muito pequenas para mim.’


Ele disse, “Auditório? Você quer dizer, toda a universidade reunida no auditório? O que, então, os outros professores estarão fazendo?’


Eu disse, ‘Isso é bom para eles pensarem a respeito. Eles deveriam ir embora e se enforcar! Eles deveriam ter feito isso há muito tempo. Ao ver que seus alunos não estavam indo assistir suas aulas, isso já era uma indicação suficiente.’


Os professores ficaram com raiva e as autoridades também. Finalmente eles tiveram que me ceder o auditório, mas com muita relutância, porque os alunos ficaram pressionando. Mas eles disseram, ‘Isto é estranho, alunos que nada têm a ver com filosofia, religião ou psicologia, por que eles devem estar indo lá?’


Muitos alunos disseram ao vice-reitor, ‘Nós gostamos disso. Não sabíamos que filosofia, religião e psicologia poderiam ser tão interessantes, tão intrigantes, senão já teríamos nos inscrito nelas. Nós pensávamos que essas matérias eram secas e que somente um tipo de pessoas muito ligado a livros se inscreveria nelas. Nós nunca tínhamos visto pessoas com muita energia se inscrevendo nessas matérias. Mas esse homem fez com que essas matérias ficassem tão significantes que parece que mesmo se formos reprovados em nossas próprias matérias, isso não vai importar. O que nós estamos fazendo está tão correto e está tão claro para nós, que nem pensamos em mudar isso.’


Contra o reconhecimento, contra a aceitação, contra as graduações… Mas, finalmente eu tive que deixar a universidade, não por causa de suas ameaças, mas porque eu reconheci que aquilo era um desperdício, pois milhares de estudantes poderiam ser ajudados por mim. Eu poderia ajudar milhões de pessoas do lado de fora, no mundo. Por que eu deveria permanecer apegado a uma pequena universidade? O mundo inteiro poderia ser a minha universidade.


E você pode ver. Eu fui condenado.
Esse foi o único reconhecimento que eu recebi.


Eu fui descrito de maneira totalmente incorreta. Tudo o que pode ser dito contra uma pessoa, foi dito contra mim; tudo o que pode ser feito contra um homem foi feito contra mim. Você acha que isso é reconhecimento? Mas eu amo o meu trabalho. Eu o amo tanto que nem mesmo o chamo de trabalho; eu simplesmente o chamo de minha alegria.


E todas as pessoas mais velhas, bem reconhecidas, me diziam, ‘O que você está fazendo não irá lhe trazer qualquer respeitabilidade no mundo.’
Mas eu dizia, ‘Eu nunca pedi por isso e não vejo o que poderei fazer com a respeitabilidade. Eu não posso comê-la nem bebê-la.’


Aprenda uma coisa básica. Faça o que você quer fazer, o que ama fazer, e nunca peça por reconhecimento. Isso é mendicância. Por que alguém deve pedir por reconhecimento? Por que alguém deve ansiar por aceitação?


Olhe no fundo de si mesmo. Talvez você não goste do que está fazendo, talvez você tenha medo de encarar que está no caminho errado. A aceitação irá ajudá-lo a achar que está certo. O reconhecimento irá fazê-lo achar que está indo para o objetivo correto.


A questão diz respeito aos seus próprios sentimentos internos, ela nada tem a ver com o mundo externo. Por que depender dos outros? Todas essas coisas dependem dos outros – você está se tornando dependente.


Eu não aceitarei qualquer prêmio Nobel. Toda essa condenação de todas as nações ao redor do mundo, de todas as religiões, é mais valiosa para mim. Aceitar o prêmio Nobel significa que eu estou me tornando dependente – agora eu não estarei mais satisfeito comigo mesmo, mas sim com o prêmio Nobel. Neste exato momento eu só posso estar satisfeito comigo mesmo, nada mais existe com que eu possa me satisfazer.


Dessa maneira você se torna um indivíduo. Para ser um indivíduo, viva em total liberdade, apoiado em seus próprios pés, beba a sua própria fonte. Isso é o que torna um homem verdadeiramente centrado, enraizado. Este é o início do seu florescimento supremo.


Essas pessoas tidas como reconhecidas, honradas, estão cheias de lixo e de nada mais. Mas elas estão cheias do lixo que a sociedade quer que elas estejam repletas – e a sociedade as compensa lhes dando premiações.


Qualquer homem, que tem algum senso de sua individualidade, vive pelo seu próprio amor, pelo seu próprio trabalho, sem se preocupar com o que os outros pensam a respeito. Quanto mais valioso for o seu trabalho, menor será a chance de obter alguma respeitabilidade para com ele. E se o seu trabalho for o trabalho de um gênio, então você não verá nenhum respeito enquanto viver. Você será condenado enquanto viver… Depois de dois ou três séculos, erguerão estátuas para você, os seus livros serão respeitados – porque demora quase dois ou três séculos para a humanidade compreender o tamanho da inteligência que um gênio tem hoje. O espaço de tempo é grande.


Sendo respeitado por idiotas, você terá que se comportar de acordo com suas maneiras e expectativas. Para ser respeitado por essa humanidade doente, você terá que ser mais doente que ela. Então eles irão respeitá-lo. Mas, o que você irá ganhar? Você perderá a sua alma e nada ganhará.“

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Adultos: já para a brincadeira!




Para conservar a curiosidade, a imaginação e a transgressão, é importante brincar sempre.

Alguns mitos precisam ser derrubados. Um deles é que a infância termina quando ficamos grandes. Quem pensa assim considera que infância é apenas uma fase da vida, um ciclo biológico durante o qual o corpo cresce aceleradamente e importantes mudanças fisiológicas acontecem. Mas há quem ache que infância é mais que isso, é um estado de espírito, cheio de qualidades que promovem o desenvolvimento da alma. Ao pensar dessa forma, aceitam que ela não termina quando começa a idade adulta; ao contrário, persiste por toda a vida. Estou nesse grupo.

Há pelo menos três qualidades na criança, necessárias para permitir sua interação com mundo: a curiosidade, a imaginação e a transgressão criativa. A primeira serve para que ela acelere o processo de percepção e entendimento do mundo; a segunda, para que ela crie, em sua cabecinha, o mundo que ela deseja, sem as mazelas que ela vai percebendo que existem; e a terceira, para que ela ouse modificá-lo para dar lugar a esse mundo ideal.

Sem essas três características humanas, que nascem conosco, provavelmente ainda estaríamos na Idade da Pedra. Foram elas que promoveram a evolução, o desenvolvimento, todo o conjunto de coisas que inventamos ao longo de todos esses séculos. Pois bem, essas qualidades são in­fantis, primárias, precoces, mas podem perdurar pela vida, conservando, no adulto, um jeito de criança.

O problema é que nós teimamos em acabar com essas qualidades quando crescemos, porque alguém - pro­vavelmente um grande chato - disse que elas não combinam com ser sério e responsável. Ora, o que seria dos inventores, dos artistas, dos poetas, dos cientistas e dos grandes promotores de mudanças se eles não tivessem conservado em si a curiosidade, a imaginação e a transgressão? Aliás, foi Eins­tein quem disse que a imaginação é mais importante que o conhecimento. E depois foi tirar aquela foto de língua para fora, brincando com o fotógrafo e com o mundo.

Então, o adulto pode continuar a brincar sem parecer ridículo? Estou escrevendo este artigo nos Estados Unidos, aonde vim para uni curto período de estudo e, claro, diversão. Aqui eles têm um ditado curioso a esse respeito. Dizem: "The difference between men and boys is the price of the toys" (a diferença entre homens e meninos é o preço dos brinquedos).

Eu sei, trata-se de uma frase com forte apelo consumista e de gosto duvidoso, mas mostra como funciona a cabeça desse povo, que desenvolveu a maior indústria de entretenimento do mundo, além de dar uma pista da essência do ser humano.

Por acaso, uma das pessoas a quem vim conhecer foi o Dr. Elkhonon Goldberg. Trata-se de um neurocientista de origem russa, pesquisador na Universidade de Nova York e autor de vários livros, entre eles O Paradoxo da Sabedoria, em que ele mostra que a mente pode manter-se lúcida e ativa apesar do envelhecimento do cérebro. Uma das condições, ele insiste, é manter-se capaz de brincar, especialmente consigo mesmo.

Quando cheguei a seu gabinete, o Dr. Goldberg abriu a porta e foi logo me perguntando se eu me incomodava com a presença de animais. Eu respondi que não, que gostava muito, que tinha duas cachorras e uma gata em casa. Ele então me fez entrar e eu pude ver em cima do sofá um imenso mastim napolitano que atendia pelo nome de Britt. Quer dizer, atendia em termos, porque demorou a ser convencido a ceder o sofá para a visita. Dr. Goldberg é uma pessoa bem-humorada. Brinca o tempo todo, de um jeito que, para os mais sisudos, talvez pareça não combinar com um cientista de renome mundial. Mas ele é assim, e em minutos eu já estava totalmente à vontade.

Ao longo da conversa, entramos no assunto da importância dos estímulos ambientais para o desenvolvimento do cérebro, e foi quando ele conseguiu me surpreender ainda mais. Esticou o braço e pegou da estante um livro em russo, escrito no começo do século passado, em que o autor já se referia a esse tema. Era um original de Lev Vigotsky, um dos maiores pensadores em educação que o mundo já produziu. E, para encanto meu, havia nele uma dedicatória de sua viúva, que o presenteou diretamente ao nosso doutor.

Vigotsky diz que o processo de brincar não torna o brinquedo um mero utensílio de distração, mas um gerador de situações imaginárias. Ele aponta em seu livro A Formação Social da Mente que toda brincadeira, por mais livre e espontânea que pareça, é regida por regras "ocultas" : A principal delas é que a criança quando brinca está sendo totalmente espontânea, pois está brincando de ser ela própria, ou seja, ela brinca de ser criança. Mesmo que, em sua brincadeira, ela esteja imitando um adulto - um piloto ou um bombeiro, por exemplo -, ela está brincando de criança que imita o adulto.

Assim, o psicólogo russo concluiu que a brincadeira é o caminho fundamental para o desenvolvimento da mente humana, pois se trata de uma idealização da realidade, a partir da qual a criança começa a sentir-se parte do mundo, exercendo, inclusive, o poder de modificá-lo. Manter-se capaz de brincar pela vida afora é manter a capacidade de interagir com a realidade da melhor forma, com humor, imaginação e alegria.

Brincar ajuda a aprender? Fragmentar a diversão como objeto de estudo é algo tão intrincado quanto completar um quebra-cabe­ça com mais de 1000 peças, mas também não é algo tão difícil quanto ganhar superpoderes para salvar o mundo do mal. A primeira peça é a que mostra que é só na alegria que a criança se coloca inteira. É fácil deduzir que, se ela considerar o ato de aprender uma brincadeira, isso au­mentará em várias vezes sua capacidade de se concentrar. Portanto, brincar ajuda a aprender.

Quem explica isso é a biologia. O biólogo evolucionista Marc Bekoff, da Universidade do Colorado, descobriu, ao comparar o cérebro humano com o de outros mamíferos, que há, entre eles, muitas semelhanças. Uma delas é a produção do neu­rotransmissor dopamina, responsável pela sensação de alegria e que também ajuda na construção de novas possibilidades. Em outras palavras, estimula o aprendizado.

"Brincar leva a uma flexibilidade mental e a um vocabulário comportamental mais amplo que auxilia o animal a obter sucesso no que im­porta: dominância do grupo, seleção de companheiros, prevenção de captura e busca por alimento", disse Bekoff. Dessa forma, ser humano e bicho funcionam de forma similar: ambos criam crescentes conexões nervosas ao longo da brincadeira, e estas ajudam a formar uma cabeça mais ágil e aberta ao novo.

E há mais gente que, sem querer querendo, está metendo sua colher de pau nesse angu. Gilles Brougèr, por exemplo, é um especialista em jogos e brinquedos. Ele coloca uma pitada de semiótica na discussão ao afirmar que as brincadeiras têm significado antropológico, e que não são simples passatempos. "O brinquedo é um dos reveladores de nossa cultura", diz ele. E insiste que, ao brincar, estamos revelando o jeito de ser de nosso grupo humano.Então o brinquedo não está à sombra da sociedade, ele revela a identida­de social da criança e, como consequência, do adulto que ela virá a ser. O brinquedo é o pensamento vigente em forma de objetos de plástico. Como se vê, não dá para parar de brincar; a humanidade perderia uma ótima opor­tunidade de entender a si mesma.

E em casa? É saudável um casal manter as brincadeiras entre si e com os filhos? E como. Desde a Grécia, os antigos - e sapientíssimos - habitantes já usavam o ato lúdico para criar e curar. Arquimedes já citava que "brincar é a condição fundamental para ser sé­rio"; os atenienses concediam peças musicais, teatros e espetáculos de comédia aos doentes; no século 16, os médicos já diagnosticavam o entretimento como o melhor medicamento para todos os males: "A alegria dilata e aquece o organismo, já a tristeza contrai e esfria o corpo".

Enfim, se você, adulto ciente e responsável, ainda não desatou a brincar, é porque ainda lhe falta maturidade. Deixar-se levar pela imaginação, não tenha medo de ir contra a maré da "adultice", de dar risada de si mesmo, abraçar a espontaneidade, correr, gritar, pular, usar o siso so­mente quando necessário e abusar - e muito - do riso.

Com relação aos baixinhos em casa, não tente transformá-los em miniadultos. Cursar novas línguas pode fazer bem à mente. Praticar es­portes pode estimular o corpo. Apren­der a tocar violoncelo pode lavar a alma. Mas desde quando rechear o dia do seu filho com tantas atividades é sinônimo de qualidade? Celular, computador, agenda cheia. Quando ele tem tempo para brincar sem estar preso à grade de horário?

É difícil conciliar estudo e diversão em tempos em que escolas priorizam formar cidadãos mais "competentes para o mercado de trabalho" que "aptos para a vida". Contudo, é bom ressaltar que aprender e brincar se complementam. Divertir-se estimula a criatividade e abre novos caminhos ao aprendizado.

Não tenha pressa em tornar seu pimpolho um pequeno sisudo. Ele irá adquirir competências de gente grande de um jeito ou de outro, cada coisa a seu tempo. E deixe que ele fa­ça você se lembrar de sua infância, de um tempo passado que pode con­tinuar ainda hoje - se você quiser -, assim você aprenderá que a infância não precisa morrer nunca.

Num cemitério do Rio de Janeiro há um túmulo diferente. Nele, uma lápide revela o espírito de quem ali repousa. Diz: "Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino". A frase foi escolhida pelo próprio escritor mineiro para imortalizar seu maior valor - a maravi­lhosa capacidade de brincar.
Autor: Eugenio Mussak Fonte: Revista – vida simples

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Dia da Infância?






A EDUCAÇÃO e CULTURA PRECISAM MUDAR ISSO...De acordo com a Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância, 62 milhões de brasileiros têm menos de 18 anos. As crianças são especialmente vulneráveis às violações dos direitos, à pobreza e à iniqüidade no País.O índice de pobreza infantil é de 44% no Brasil, passando a 78% entre as crianças negras. Mais de 70% das crianças pobres nunca foram à escola durante a primeira infância. Há 800 mil crianças de 7 a 14 anos fora da escola.De cada 100 alunos que entram no ensino fundamental, apenas 59 terminam a 8ª série e, destes, somente 40 concluem o ensino médio. A evasão escolar e a falta às aulas ocorrem por diferentes razões, incluindo violência e gravidez na adolescência.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Homenagem à um Músico, Mecânico e por fim, um Contador.




Sem muita inspiração mas por pura homenagem, retiro palavras da alma em dia da morte de meu querido avô, nesse dia 18 de agosto de 2009.

Escrevo por amor e respeito, à um músico, um mecânico e por fim, um contador.

Bem novo já tocava violino na Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, por preconceito da década, deixou de lado o sonho musical para se doar a outra paixão, que era a mecânica. Essa que virou hobby, pois também por limitação visionária de tal época, a Contabilidade se deu por formação.

Um Músico, Mecânico e por fim, um Contador. Um pai de 06 filhos, 05 mulheres e 01 homem, meu pai. De netos incontáveis, família Católica, espírito cardecista, alma universal.

Pelo universo sonhava voar, conhecer Marte, à E.T´s dar um olá... Pois dará, ah se dará! Mande um beijo a belíssima Iemanjá e também um forte abraço ao mestre de lá. Que os anjos acolhem-te em um belo lugar, tranquilo, sossegado, um canto que calado vai se renovar.

Observará como é bom ouvir novamente o canto dos pássaros e poder se arrepiar, com notas tão claras e perfeitas como as de um violino em uma Orquestra.

Solidão nos resta se não soubermos voar, à Marte, sair dum pouco de casa, da Terra, quem dera um dia eu lhe encontrar. Mais novo, mais farto, vai vasto de amor e de pensar, que a vida é passageira, ensina e nos faz valorizar. Cada sorriso seu, cada segundo do seu olhar.

Olhar profundo parecido com o meu, de mesmo signo que sabe comunicar. Quando o coração canta melodias de amor, a paz volta a reinar, entao meu avô, aproveita a festa no céu e volte pra me contar.


Oswaldo Fernandes, que com a graça de Deus, estarás em boas e abençoadas mãos.

Te amo.
Luz e Paz.



Por Guzta Sáfer


"Vamos cuidar de nossa vida. A morte nos espreita, aguarda-nos. Não sinistra e temerosa. Mas nos leva sorrateira a uma viagem amorosa pelo passado e pelo futuro. Fale comigo agora. Hoje. Amanhã pode não vir. Cuide, inclua, compreenda, ajude, transforme. Já. Não há outro dia."

Monja Coen

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ensinamentos: Oito Versos que Transformam a Mente




Vou agora ler e explicar brevemente um dos mais importantes textos sobre a transformação da mente, Lojong Tsigyema (Oito Versos que Transformam a Mente). Este texto foi composto por Geshe Langri Tangba, um bodisatva bastante incomum. Eu próprio o leio todos os dias, tendo recebido a transmissão do comentário de Kyabje Trijang Rinpoche.


1. Com a determinação de alcançar. O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes, Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos, Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.


Aqui, estamos pedindo: "Possa eu ser capaz de enxergar os seres como uma jóia preciosa, já que são o objeto por conta do qual poderei alcançar a onisciência; portanto, possa eu ser capaz de prezá-los e estimá-los."


2. Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender. A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas, E, com todo respeito, considerá-las supremas, Do fundo do meu coração.


"Com todo respeito considerá-las supremas" significa não as ver como um objeto de pena, o qual olhamos de cima, mas, sim, as ver como um objeto elevado. Tomemos, por exemplo, os insetos: eles são inferiores a nós porque desconhecem as coisas certas a serem adotadas ou descartadas, ao passo que nós conhecemos essas coisas, já que percebemos a natureza destrutiva das emoções negativas. Embora seja essa a situação, podemos também enxergar os fatos de um outro ponto de vista. Apesar de termos consciência da natureza destrutiva das emoções negativas, deixamo-nos ficar sob a influência delas e, nesse sentido, somos inferiores aos insetos.


3. Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente. E, sempre que surgir uma emoção negativa, Pondo em risco a mim mesmo e aos outros, Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.


Quando nos propomos uma prática desse tipo, a única coisa que constitui obstáculo são as negatividades presentes no nosso fluxo mental; já espíritos e outros que tais não representam obstáculo algum. Assim, não devemos ter uma atitude de preguiça e passividade diante do inimigo interno; antes, devemos ser alertas e ativos, contrapondo-nos às negatividades de imediato.


4. Vou prezar os seres que têm natureza perversa. E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos. Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso, Muito difícil de achar.


Essas linhas enfatizam a transformação dos nossos pensamentos em relação aos seres sencientes que carregam fortes negatividades. De modo geral, é mais difícil termos compaixão por pessoas afligidas pelo sofrimento e coisas assim, quando sua natureza e personalidade são muito perversas. Na verdade, essas pessoas deveriam ser vistas como objeto supremo da nossa compaixão. Nossa atitude, quando nos deparamos com gente assim, deveria ser a de quem encontrou um tesouro.


5. Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa. Ou a insultarem e caluniarem. Vou aprender a aceitar a derrota, E a eles oferecer a vitória.


Falando de modo geral, sempre que os outros, injustificadamente, fazem algo de errado em relação à nossa pessoa, é lícito retaliar, dentro de uma ótica mundana. Porém, o praticante das técnicas da transformação da mente devem sempre oferecer a vitória aos outros.


6. Quando alguém a quem ajudei com grande esperança. Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo. Vou aprender a ver essa outra pessoa Como um excelente guia espiritual.


Normalmente, esperamos que os seres sencientes a quem muito auxiliamos retribuam a nossa bondade; é essa a nossa expectativa. Ao contrário, porém, deveríamos pensar: "Se essa pessoa me fere em vez de retribuir a minha bondade, possa eu não retaliar mas, sim, refletir sobre a bondade dela e ser capaz de vê-la como um guia especial."


7. Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção. Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos. E a tomar sobre mim, em sigilo. Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.


O verso diz: "Em suma, possa eu ser capaz de oferecer todas as qualidades boas que possuo a todos os seres sencientes," — essa é a prática da generosidade — e ainda: "Possa eu ser capaz, em sigilo, de tomar sobre mim todos os males e sofrimentos deles, nesta vida e em vidas futuras." Essas palavras estão ligadas ao processo da inspiração e expiração.


Até aqui, os versos trataram da prática no nível da bodhicitta convencional. As técnicas para cultivo da bodhicitta convencional não devem ser influenciadas por atitudes como: "Se eu fizer a prática do dar e receber, terei melhor saúde, e coisas assim", pois elas denotam a influência de considerações mundanas. Nossa atitude não deve ser: "Se eu fizer uma prática assim, as pessoas vão me respeitar e me considerar um bom praticante." Em suma, nossa prática destas técnicas não deve ser influenciada por nenhuma motivação mundana.


8. Vou aprender a manter estas práticas. Isentas das máculas das oito preocupações mundanas. E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios. Serei libertado da escravidão do apego.


Essas linhas falam da prática da bodhicitta última. Quando falamos dos antídotos contra as oito atitudes mundanas, existem muitos níveis. O verdadeiro antídoto capaz de suplantar a influência das atitudes mundanas é a compreensão de que os fenômenos são desprovidos de natureza intrínseca. Os fenômenos, todos eles, não possuem existência própria — eles são como ilusões. Embora apareçam aos nossos olhos como dotados de existência verdadeira, não possuem nenhuma realidade. "Ao compreender sua natureza relativa, possa eu ficar livre das cadeias do apego."


Deveríamos ler Lojong Tsigyema todos os dias e, assim, incrementarmos nossa prática do ideal do bodisatva.


(Extraído de The Union Of Bliss And Emptiness.)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

VIDA e Morte









por Monja Coen




Vida após a morte? Morte após a vida? Vida em vida? Morte em morte? Morte na vida? Vida na morte? Morte na morte? Vida na vida? O que veio primeiro, a morte ou a vida? Estaria tudo morto quando a vida iniciou o seu processo inusitado de dar vida à morte? Ou estaria tudo vivo quando a morte iniciou o seu processo inusitado de matar a vida? É a vida dando vida à vida? É a morte matando a morte? É a vida dando vida à morte? É a morte dando vida à vida?
Dizem os budas que não há nascer nem morrer. Então, como explicar o choro do bebê. Nasceu, não foi? E como falar do morto no caixão, sendo velado. Morreu, não foi?
Há quem adore falar com os mortos. É tão legal falar com os vivos. Não é preciso esperar que morram para ouvi-los, para falar, para pedir perdão, para querer aprender, para doar. Há seres maravilhosos hoje, agora, ao seu lado, em você. Pare e olhe para eles. Encontre e ouça a sua voz mais doce e verdadeira. É preciso encontrar, neste plano, neste instante, em cada ser, a graça do "interser". É preciso cultivar a beleza, a pureza, a bondade e as virtudes e fazer uma teia preciosa de seres iluminados, brilhando para todos os lados.
Não há tempo a perder e, ao mesmo tempo, temos toda a eternidade. O tempo não está correndo. Corremos junto com o tempo. Giramos com a Terra, que gira em tomo do Sol... Somos o tempo. Um momento.
Para onde foi o momento que eu pedi para esperar? Ele não esperou. Nada espera. Tudo flui. Fluímos com o tempo. Vivendo e morrendo a cada instante. Células que nascem e morrem. Quem quer ser eterno?

Vou mudando, crescendo, envelhecendo. A barriga cresce, depois murcha. Já não consigo andar tanto. Fico cansada por qualquer coisinha. Esqueço as coisas, esqueço as pessoas. Quando me perguntam do passado, tenho de puxar memórias que nem sei onde foram arquivadas. Surge um rosto, uma face, uma voz: "Você se lembra de mim?". Lembro? Não sei.
Eternamente vivendo cada morte instantânea de mim mesma. Presente. Presente de ser e de estar. Presente de receber e de dar.
Professora! Posso ir ao banheiro? Não. Pipi no chão. Vá buscar um pano e limpar. E a minha roupa molhada? E as minhas pernas, as minhas meias, o meu sapato? Eu pedi para ir ao banheiro. Claro que não deu tempo no recreio. Intervalo é para brincar, jogar bola. Não dá tempo de ir ao banheiro. Por que a professora não entende? Nunca foi criança, talvez? Já nasceu assim grande, professora?
Professora pode rasgar papel de aluno? Mesmo um papelzinho de recado, de desenho, de ternura, de amizade? Pode?
Direitos humanos. Quem avançou o sinal? Quem desrespeitou primeiro? Ele estava batendo no meu amigo. Fui lá e o enforquei. Ele me deu dois murros. Todos para a diretoria. Quando a gente cresce, não é para a diretoria da escola que a gente vai. Quando a gente cresce, não é a professora que rasga nossos papéis de recados queridos.
E o que fazer? Vamos vivendo... Não assim, respondendo como se fosse uma coisa corriqueira. Vivendo. Que alegria, a vida.
Com seus altos e baixos, suas memórias. Ah! Até essas podem ser roubadas.
E daí? Sem lastimar, vamos nos transformando. Sem indiferença e sem negligência.
O corpo de agora é onde tudo se manifesta. Cuide dele com carinho e respeito. Não deixe ficar balofo, doente, estressado. Cuide com o cuidado de quem só tem um. Não dá para trocar na loja. Remendos são caros e complicados. Vamos cuidar de nossa vida. A morte nos espreita, aguarda-nos. Não sinistra e temerosa. Mas nos leva sorrateira a uma viagem amorosa pelo passado e pelo futuro. Fale comigo agora. Hoje. Amanhã pode não vir. Cuide, inclua, compreenda, ajude, transforme. Já. Não há outro dia.

terça-feira, 23 de junho de 2009

100 Dívidas!

Respire fundo porque vamos falar de dinheiro. Poucos assuntos conseguem ser ao mesmo tempo mais estressantes e mais fascinantes. Duvida? Basta ver o que diz a sabedoria popular. Você, com certeza, já ouviu (ou repetiu) algumas das frases a seguir - e pensou no que elas realmente significam:

- Dinheiro não traz felicidade. (dinheiro traz problemas)
- Lave as mãos depois de mexer com dinheiro. (dinheiro é sujo)
- Fulano só pensa em ganhar dinheiro. (fulano deve ser desonesto)
- Não se fala de dinheiro à mesa. (dinheiro é indecente)

Esse preconceito torna mais difícil lidar com o fato de que dinheiro é mais significativo em nossa vida do que o sexo. Duvida? Acesse a internet, abra qualquer ferramenta de busca e exercite um pouquinho seu inglês, a língua oficiosa da rede mundial. Se digitar "sex , você vai encontrar 727 bilhões de páginas. É bastante, mais do que qualquer pessoa pode conseguir ler, mesmo que dedique toda a vida a isso. Porém, se você digitar "money , vai encontrar 1,33 trilhão - isso mesmo, trilhão - de páginas, quase o dobro das menções ao sexo. Não é um acaso. Uma pessoa pode viver sem sexo por opção (ou falta de), mas viver sem dinheiro é impossível, exceto para eremitas que moram em cavernas, cultivam a própria comida e tecem as próprias roupas, trocando o que produzem pelo que precisam.

Na sociedade moderna, a maioria das relações humanas é medida e mediada pelo dinheiro. O dinheiro que você tem define onde você mora, o que come, como se veste e se desloca, sua educação e sua saúde. Por isso, ricos e pobres, materialistas e desprendidos, avarentos e perdulários, todos têm de saber lidar com dinheiro, pois ele permeia todos os aspectos da vida. Essa é a notícia ruim.

A notícia boa é que lidar com dinheiro parece difícil, mas não é: requer apenas a aplicação sistemática de algumas práticas simples. VIDA SIMPI.ES ouviu especialistas e descobriu que os princípios básicos não são complicados. Com um pouco de disciplina, você pode ter uma relação amigável com seu dinheiro. Vamos lá.

Aprenda a controlar


O segredo em lidar com o dinheiro está em uma palavra: sistemática. Lidar com dinheiro é mais ou menos como lidar com a água da casa. Se você gastar mais do que recebe, vai faltar. Você pode consumir ou desperdiçar água, da mesma maneira que pode fazer isso com seu dinheiro. Ao tomar um copo de água em um dia quente de verão, você está usando muito bem um recurso precioso. Se deixar uma torneira aberta enquanto escova os dentes, é um desperdício. Com o dinheiro, é a mesma coisa.

O problema é que somos convocados a gastar a cada momento. Faça um exercício simples na próxima vez que sair à rua. Tente contar quantas mensagens dizendo "compre meu produto" chegam até você nos primeiros cinco minutos de percurso. Podem ser placas, faixas, mensagens em ônibus, comerciais de rádio e mensagens no telefone celular, ou até mesmo o tradicional alto-falante gritando "Pamonhas, pamonhas, pamonhas". Se estiver caminhando ou dirigindo por um trecho urbano, você verá pelo menos dez mensagens, duas por minuto.

Com tantos estímulos, é fácil perder o controle de quanto você gasta. Cheques pré-datados, cartão de débito e cartão de crédito foram pensados para facilitar o consumo, não para garantir a saúde financeira do consumidor. Essa responsabilidade é sua. E aí não tem jeito. É preciso controlar, uma atividade que tem de ser tão rotineira quanto escovar os dentes. Por isso, a regra de ouro para lidar com seu dinheiro é a seguinte: gastou? Anote.

Parece simples demais, mas você não faz idéia de como anotar todos os seus gastos ajuda a controlar suas finanças. Isso quer dizer exatamente todos. Mesmo que sejam 10 centavos para comprar uma bala na padaria da esquina. Depois de três meses adotando essa disciplina, reserve uma tarde de domingo, arme-se de coragem, abra uma garrafa de vinho ou acenda um incenso e analise cuidadosamente seus gastos. Some todas as vezes que você comprou roupas que nunca usou, livros que nunca leu, quando saiu para comer fora sem realmente estar com vontade.

Você vai se encher de horror ao perceber que 1) gasta muito dinheiro e 2) uma boa parte dos seus gastos é desnecessária. Ao anotar cada centavo que sai do seu bolso, você poderá tomar cuidado para evitar os vazamentos. "Sem controle, é fácil gastar demais", diz Marcos Crivelaro, PhD em finanças e professor da Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap). "Controlando, a pessoa pode calcular se está usando bens o dinheiro."

Funciona? Um exemplo deve motivar você. O banqueiro americano John Pierpont Morgan (1837-1913) foi um dos homens mais ricos do mundo. Tinha tanto dinheiro que seu banco funcionava como Banco Central dos Estados Unidos, que na época não tinham essa instituição. Morgan organizou a maior siderúrgica e a maior ferrovia do mundo e boa parte das obras de arte que se encontram no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, veio de sua coleção pessoal. Alguém tão rico não precisaria se preocupar com os gastos, mas em uma viagem a França perto dos 70 anos, Morgan anotou em um dos cadernos que sempre levava consigo que havia gasto 10 centavos para comprar uma garrafa de água.

O essencial é descobrir uma ferramenta de controle que seja uma solução, não um problema. Há vários programas de computador dedicados ao controle de gastos. Uma rápida busca na internet indica 12,1 milhões de páginas com menções ao tema, mas não se preocupe se você não se sentir à vontade cone computadores. Lápis e papel também funcionam desde que você anote e controle seus gastos. Quando isso se tornar um hábito, você estará pronto para adotar a segunda regra do dinheiro, que é planejar seus gastos antecipadamente.

A regra para lidar com o dinheiro é a seguinte: gastou? Anote. Você aprende a controlar

Planeje seus gastos
Vamos começar de um exemplo prático. No dia 20 de novembro, a maioria dos trabalhadores regulares recebeu o adiantamento do 13° salário. A primeira tentação é correr para o shopping. Só não se esqueça de que, mais ou menos 60 dias depois de receber esse dinheiro, você terá de pagar a primeira parcela do IPTU. Mais algumas semanas e você precisará pagar IPVA. São gastos pesados. Inevitáveis, já que o governo não perdoa. E, principalmente, você pode pagar menos imposto se liquidar a fatura à vista, na primeira prestação. Para isso, você precisa ter dinheiro no bolso - por exemplo, o que você recebeu como 13° salário.

Não é justo que você tenha de trabalhar todo um ano para entregar aquele sofrido salário a mais para o governo, um notório mau gastador. Por isso mesmo, o ideal é planejar seus gastos do início do ano, como impostos, matrícula e material escolar dos filhos e uma viagem de férias ou na virada do ano, que ninguém é de ferro. Ao controlar seus gastos e conseguir poupar um pouco, você terá dinheiro para as despesas de verão sem ter de entrar no cheque especial e ficar pagando juros até novembro de 2009, quando receber de novo o 13°.

Como planejar? Não é difícil. Você tem dois grandes grupos de despesas: as previsíveis e as imprevisíveis. As previsíveis são mensais, como comida, transporte, combustível, aluguel ou condomínio, água, eletricidade, telefone e conexão à internet. Você também tem despesas previsíveis anuais, como o IPVA, IPTU, matrícula escolar dos filhos e seguro do carro. Agora que você está anotando seus gastos, você sabe quais são suas despesas mensais. Resta agora calcular quanto serão as despesas anuais.

Uma boa estimativa é descobrir quanto você pagou no início de 2008, acrescentar uma inflação de mais ou menos 6% (basta multiplicar por 1,06) e você saberá um valor aproximado. Some todas as despesas anuais e divida esse valor por 12. Pronto: você já descobriu quanto terá de poupar todos os meses para nunca mais entrar no cheque especial. Guardando esse dinheiro, você não precisará entrar no vermelho no início de 2010 ou ver seu suado 13º passando rapidamente pela sua conta e partindo para nunca mais voltar.

Falando em cheque especial, vamos falar dos bancos. Eles são ótimos: guardam nosso dinheiro, pagam nossas contas e até nos concedem crédito quando precisamos. Bancos são essenciais para o funcionamento da economia, mas eles não fazem nada de graça. Por isso, você tem de saber lidar com eles.

A palavra-chave para lidar com os bancos é relacionamento. Quanto mais negócios o cliente fizer com eles, mais vantagens terá. Por isso, concentre todas as suas contas a pagar em um único banco e prefira o débito automático.

Há várias vantagens. Você não paga nada com atraso, não pega fila e é recompensado pelo banco, que não quer você na agência. Atender um cliente na agência faz o banco gastar dinheiro com caixas, seguranças, aluguel e limpeza. Evitando essa despesa, você ganha pontos. Acumule pontos suficientes e você não vai pagar tarifas, economizando mais ainda e não precisando pedir empréstimos.

O cheque especial e o cartão de crédito são os empréstimos mais fáceis de obter. Não é necessário pedir, eles já estão lá, aprovados. Essa facilidade, claro, tem preço: mais ou menos 9% ao mês, ou 181% ao ano. Isso mesmo. Se você financiar 1000 reais no cheque especial por um ano, sua dívida vai crescer para 2 813 reais, mais ou menos. Portanto, nunca entre no cheque especial. É muito mais negócio tirar dinheiro da poupança e pagar uma dívida do que se financiar com essas taxas.

Todas essas recomendações são muito simples. Requerem apenas controle, um pouco de disciplina e a convicção de que você pode viver melhor se tiver domínio sobre o seu dinheiro. Vai até sobrar para investir. Sim, você pode se tornar um investidor. Você verá.

A poupança é mais segura, mas rende pouco. Descubra que há outras opções

Como investir


Investir dinheiro começa com a decisão de não gastar todo o seu salário e guardar um pouco para gastar depois. É a velha estratégia de poupar para fazer uma compra grande à vista, não pagando juros e pedindo desconto. Para sofisticar um pouco mais, você coloca seu dinheiro para trabalhar enquanto a hora de pagar não chega. Para isso, há um universo de produtos financeiros de investimento à sua disposição. Aqui, vamos falar dos três investimentos mais simples, as cadernetas de poupança, os Certificados de Depósito Bancário (CDB), os fundos de investimento de renda fixa e os fundos de previdência privada.

As cadernetas de poupança são o mais simples, democrático e seguro dos investimentos. É simples porque você aplica seu dinheiro hoje e daqui a 30 dias recebe o dinheiro que aplicou e um pouquinho a mais. A poupança é democrática: se você investir 50 reais ou 10 milhões de reais, vai obter a mesma rentabilidade. "Também é isenta de imposto e é segura por ser garantida até 60 mil reais. A desvantagem é que todo esse conforto tem preço, pois o investidor ganha muito pouco ao aplicar na poupança, cerca de 8% ao ano.

Como obter o melhor da poupança? Não há nenhuma diferença entre elas, por isso não adianta tentar melhorar sua rentabilidade. O que você pode fazer é usar a poupança como um trunfo na hora de negociar com o banco, escolhendo aplicar onde obtiver mais vantagens, como tarifas menores.

Os CDBs são um pouco mais sofisticados. Um banco precisa de capital para emprestar, por isso ele toma dinheiro emprestado de quem tem caixa, vendendo CDB. Eles provam que as pessoas não são iguais em termos financeiros. Os bancos pagam juros maiores para quem investe mais. Além disso, quem investe em CDB não recebe tudo o que ganhou. Eles não são isentos de imposto e é preciso dividir parte do ganho com o governo, que pode cobrar de 22,5 a 15% do ganho, dependendo do prazo da aplicação. Investimentos menores que seis meses pagam 22,5%. Aplicações mais longas pagam menos e quem deixar seu dinheiro aplicado por mais de dois anos paga 15%. Apesar dessa mordida do Leão, os CDBs têm rendido mais do que a poupança.

Como obter o melhor dos CDBs? Quanto mais dinheiro e mais tempo você tiver, melhor. Não espalhe suas aplicações por vários bancos. Reúna todo o valor e negocie uma boa taxa. E negocie bastante com o gerente, pois a regra do banco é nunca oferecer a melhor taxa logo de saída. É possível ganhar mais se você barganhar um pouco, especialmente se chegar à agência com uma grande quantia, acima de 50 mil reais, por exemplo.

O terceiro instrumento financeiro são os fundos de investimento, que funcionam como o condomínio que administra um edifício. Cada investidor é proprietário de um pedaço do fundo, e todos concordam em contratar um profissional para gerir o dinheiro. Ele realiza o trabalho cansativo de analisar continuamente as condições do mercado financeiro e ligar todos os dias para os bancos em busca das melhores remunerações. Para realizar o trabalho, esse profissional fica com uma parte do dinheiro investido, cobrando uma taxa de administração, que pode variar de 1 a 4% ao ano, e é descontada um pouco por dia.

Como obter o melhor de um fundo? Procure bastante pela taxa de administração e sempre escolha a menor. À primeira vista, pagar uma taxa de 1% não é muito diferente de pagar uma taxa de 1,5%, No entanto, a cada 100 mil reais aplicados você vai economizar 500 reais por ano se trocar o fundo que cobra 1,5% pelo fundo que cobra 1%.

Para finalizar, vamos falar de um tipo especial de fundo, os produtos de previdência privada, conhecidos por nomes complicados, como Plano Gerador de Benefícios Livres (PGBL) e Vida Gerador de Benefícios Livres (VGBL). O princípio básico desses fundos é que sua vida tem duas grandes fases financeiras. No início, você trabalha e ganha dinheiro. Depois, quando o tempo passa, você deixa de trabalhar e passa a viver do dinheiro que ganhou.

O PGBL e o VGBL são produtos financeiros destinados a facilitar a acumulação do seu dinheiro. São como os fundos de investimento, mas têm duas diferenças. A primeira, no caso dos PGBLs, é que você pode descontar o que investiu do seu Imposto de Renda a pagar, limitado a 12% de sua renda anual. Se você não gastar esse dinheiro poupado mas investi-lo no PGBL, vai acumular capital mais depressa para financiar sua aposentadoria. A desvantagem do PGBL é que você paga imposto sobre tudo o que resgatar. Os VGBLs não oferecem essa vantagem tributária na hora da aplicação, mas em compensação só cobram imposto sobre o que você ganhou, não sobre o total.

Como obter o melhor desses fundos? Antes de mais nada, tenha certeza das taxas que esses fundos cobram. Além das taxas de administração, os fundos podem cobrar taxas de carregamento, que funcionam como um pedágio na hora de investir dinheiro. Você deposita 100 reais, mas só investe 97, por exemplo. Os três reais de diferença são cobrados pelo banco ou pela seguradora para cobrir os custos do fundo. Procurar bem, aqui, é essencial.

A segunda pegada dos fundos de previdência é uma vantagem tributária. Nos fundos normais e nos CDBs, quem deixar o dinheiro aplicado por dois anos paga 15% de imposto sobre o que ganhou. Os fundos de previdência privada cobram menos. A alíquota mais baixa é de 10%, a menor de todo o mercado. Só que o dinheiro tem de ficar investido por dez anos. Você pode trocar de fundo, um recurso conhecido como portabilidade, mas não pode pôr o dinheiro no bolso. Senão perde a vantagem.

Agora, é só começar 2009 com novas propostas para seu dinheiro. Em 2010, com certeza você terá muito mais alegrias nessa área.


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